Os sonhos que não lembramos

29 01 2010

Não sei quanto a você, mas no último dia útil de janeiro de 2010 já não posso garantir que recordo de tudo o que foi pensado, sonhado e desejado como votos de fim de ano. Dizer que o mundo está mais rápido é apenas aplacar uma verdade que está mais dentro do nós do que lá fora. Não recordamos os nossos sonhos porque quando eles acontecem, como agora que escrevo este texto, acreditamos que eles são palpáveis, duráveis e perenes. Não são. A natureza do sonho é sutil, leve e flutuante. Para se tornar duradouro e atravessar décadas, o sonho precisa ser sempre lembrado como uma canção que não sai da cabeça. Nosso investimento primordial deveria ser garantir uma memória mais forte, plena e alerta, que pudesse atravessar nossa mente a cada instante, avaliando a qualidade de todos os pensamentos que brotam. “Isso é bom, quero continuar lembrando. Isso é neutro, não tem porque perder tempo. Isso é ruim, ops, que tal um pouco de atenção para não permitir os sonhos ruins aqui dentro?”. Para alguns, essa mecânica do pensar pode parecer tediosa, enfadonha e sem açúcar. Geralmente, esses são os métodos que adotamos quando não queremos nos abster do desejo. Daquela vontade que é até mais um hábito de consumo do que um insight experimental. Ao colocar em foco um objetivo desejado, nos entregamos aos prazeres sensoriais que ele proporciona e deixamos de lado a lembrança do que foi sonhado como positivo em nossa vida. Ou seja, o sonho sensorial é mais profundo, mais intenso em termos de prazer e de sensibilidade; porém, tão sedutor que nos retira justamente a noção clara de estar dentro dele. É o casulo do embrião, que se forma sem a consciência do que acontece a si mesmo. Ou não é assim que você se sente em relação ao seu nascimento? A teoria aqui, portanto, é clara: não podemos acordar do sonho quando imergimos nele. A entrega aos seus prazeres sensitivos são grilhões da mente inerte e dormente. Do poço retiramos a água, mas nunca a sede. Afinal, quantos sonhos já não recordamos em busca de um simpless copo para beber?

©Este post é uma homenagem a Sra. Leni, mãe de 3 filhos e que vive num casebre construído em cima de uma calçada na periferia da zona sul de São Paulo. Seu sonho hoje é profundo, mas sua vida poderá servir de inspiração para milhares de pessoas ao redor do mundo, se um dia ela despertar. Agradeço por ter me recebido com tanto amor e esperança. Que todos os seres possam se beneficiar.





Avatares, chegou a hora!

31 12 2009

Em 2003, Pierre Weil escreveu “Mutantes. Uma nova humanidade para um novo milênio”. Não é obra tão conhecida como “O Corpo Fala”, produzida em co-autoria com Roland Tompakow em 1980. Mas, talvez, seja muito mais importante hoje; quando os cinemas de todo o mundo são invadidos por multidões para assistir “Avatar”, do cineasta James Cameron. No livro, Weil contextualiza o Mutante com um Pontifex, antigamente, nome dado “aos construtores de pontes, em virtude dos rituais religiosos que acompanhavam essa contrução”, que transformou-se em título de liderança espiritual, como Jesus Cristo, e posteriormente foi aplicado ao sumo pontífice, o Papa. Para Weil, o mutante que chega no novo século é ávido de conhecer a realidade última, sem vacilar em comparações impróprias entre textos sagrados. Sua liberdade permitirá a procura de explicações e confirmações que provem a existência de uma dimensão divina no universo. E funcionará como uma espécie de sinapse para que outros humanos possam reconhecer essa verdade. Neste sentido, ele se tornará um explorador das fronteiras psicológicas e corporais, construindo pontes sobre todas as fronteiras artificiais criadas por sua própria mente. E “a descoberta do caráter ilusório da fronteira da pele o levará a estender a última ponte: da dualidade exterior-interior”. Não pude deixar de reler o livro, logo após assistir ao filme de Cameron. Apesar de muitos críticos de cinema considerarem o roteiro uma historinha ingênua, arrastada e ecochata, aos meus olhos vi uma grande obra, capaz de tocar todos os índigos que chegam a terra desde o século passado. Sim, não é a toa que os Na’vi são azuis, possuem uma sensibilidade extra-sensorial, valorizam a natureza e os animais e são dotados de uma conexão com a energia universal. Muito menos cândido é também a sua revolta àqueles que depreciam sua sabedoria por ignorância e autoritarismo. O penúltimo capítulo do livro do fundador da UNIPAZ – rede internacional que promove a Cultura de Paz – é claro ao abordar o papel do mutante numa estratégia global de salvação da vida no planeta. O estado de consciência, a visão do universo, a perspectiva antropológica, os valores e as atitudes, os hábitos e comportamentos diários e a importância da transformação do estagnante (seres que vivem em estagnação mental) em mutante, são tópicos a se descobrir. Ora, e o que assistimos na história em Pandora (na mitologia, uma espécie de Eva; a primeira mulher criada por Zeus)? Um estagnante se transmuta em um ser azulado, dotado de capacidades além da percepção humanóide – leia-se humano robotizado. A beleza do argumento deve ser ampliada ao próprio James, afinal, sua história registra filmes como Aliens, O Segredo do Abismo e Exterminador do Futuro; que como o próprio título alerta, é a antítese da visão preservada em Avatar. Se o filme virar um épico é porque já há mutantes suficientes para empreender a grande transformação que a terra precisa para sobreviver. Feliz 2010.

©A palavra avatar tem origem do sânscrito (Avatara), que significa descida (de um ser divino à terra). Mas o processo de mutação pode ser inverso. Você pode buscar diversas formas de reconhecimento da sabedoria humana para alcançar o que é sublime. Com esta descoberta, naturalmente encontrará a valorização da natureza e poderá beneficiar todos os seres que estão ao seu redor. Acredite, vale a pena investir tempo e esforço nesta caminhada!





Papai Noel existe?

23 12 2009

É Domingo. Sentado na sala, folheio um jornal qualquer em busca de algum sentido para todas as incertezas da vida. Sem muita atenção, apenas leio os títulos, analisando a mesmice gramatical e a imprudência ao abordar o que é sério com displicência. No meio do processo meu filho entra na sala com um papel sulfite A4 em suas mãos. O papel está desenhado com motivos natalinos e recordo a ocasião. Com um lindo sorriso no rosto, usual e característico, ele se vira para mim e diz… “Pai, olha que carta bonita o Papai Noel me escreveu o ano passado!” Ele se aproxima mais e relembramos o dia em que a carta chegou, junto com o presente almejado. Hoje, era dia de escrever uma nova carta ao bom velhinho, como a tradição manda. E nesta época é comum fazermos uma lista de opções, já que Papai Noel precisa entregar milhares de presentes numa só noite. “Como ele consegue papai?” …esta indagação já partiu de suas reflexões várias vezes. Mas a magia é a própria essência da vida. Ou não somos nós que construímos tudo o que nos rodeia? Sim, somos surpreendidos por centenas de “pacotes”, entregues todos os dias em nossas mãos. Um café da manhã bonito, um abraço na hora da despedida, uma atenção quando estamos tristes. Quem será que embala tudo isso e nos entrega a cada minuto? Vejo em meu filho as dúvidas que reinam em todos nós quando não entendemos a sutileza com que a realidade é formada. Papai Noel é somente um símbolo deste agrupamento, um argumento criativo que nos impele a acreditar na força da bondade, nossa verdadeira natureza. Volto os olhos ao Daniel e percebo suas construções mentais. Ele sonha, literalmente, como se estivesse na Terra do Nunca. De repente, vira novamente seu espírito transparente e comenta atento… “Nossa, pai, o Papai Noel desenha tão bem e faz tudo tão bonito…” …em casa, sou eu quem o ensina a desenhar e pintar… “…e olha como a letra dele parece com a sua!” …acho engraçado, afinal, ele está chegando aos 10 anos e começa a desconfiar e questionar aquilo que não é palpável; e completa… “Papai Noel existe?” Não desvio o olhar e apenas confirmo positivamente, com todo o amor que sinto por ele. E essa certeza é simpless, pois sua fantasia é mais verdadeira do que a visão materialista. Se algo existe na mente, então existe! E se ainda é um objeto de generosidade, melhor ainda! Porém, num desejo de formalizar racionalmente sua existência, complemento erroneamente… “quem você acha que compra todos os presentes para as crianças?” A resposta não poderia ser mais sublime… “Pai, o Papai Noel não compra, ele faz os presentes!” A magia volta a invadir meu coração. Feliz Natal.

©A beleza do Natal está no presente, na capacidade de sentir afeto e compaixão hoje! Que todos os seres possam se beneficiar desta verdade.





Inscrições

10 12 2009

Atos são marcas cravadas na alma dos seres. Nossa epígrafe é como uma inscrição rupestre, escrita na natureza. Um dos ensinamentos do Buda conta que a cólera pode ser entendida através da superfície que ela é registrada: na rocha, na terra ou na água. Aquela que é parecida com à inscrição na rocha fica frequentemente zangada e sua cólera perdura por longo tempo, como o traço que na pedra fica e não é apagada pelo vento ou pela água. Há também os seres parecidos com à inscrição na terra. Estes, frequentemente também são tomados pela raiva, mas sua cólera é rapidamente apagada pelo vento, pela água ou pelo tempo; como o solo que foi marcado mas logo se desmancha. Por fim, há aqueles que são como à inscrição na água. Embora lhe falem grosseiramente e com aspereza, nenhuma rudez permanece. Pois, justamente como o desenho na água, que logo retorna ao natural e não se fixa por muito tempo; ela é facilmente reconciliada, tornando-se agradável e amiga. E você, como vem escrevendo suas inscrições?

©Extraído do livro “Ensinamentos do Buda, Uma antologia do Cânone Páli“, Nissim Cohen, 2008. Que todos os seres possam se beneficiar.





“A vida é muito curta para faltas de esclarecimento.”

8 12 2009

Os conflitos que vivemos no nosso dia-a-dia, não são nada mais do que a expressão da nossa mente que será tocada no momento da morte. Deixar de esclarecer os mal-entendidos que vivemos hoje é deixar que o mesmo estado retorne futuramente, no bardo do estado intermediário ou em outra vida. No fundo, estamos bem e felizes, mas é só aparecer o espelho do carma negativo que somos engolfados pela sua força. A mente alerta evita isso, sermos novamente levados pelos vícios e velhos hábitos da mente.

©Que todos os seres possam se beneficiar.





Acredite em Você

5 11 2009

A pergunta parece óbvia, mas faço mesmo assim: você acredita em você? Não responda agora, pois sua fala pode estar pronta como um macarrão instantâneo. Sem gosto, sem graça e artificialmente vitaminado. Basta encher de água quente, fervendo como ódio, que logo o ego infla dando ar de comida bem feita. E basta uma platéia para ouvir seus dotes, culinários ou não, que você se apropria de todas as receitas para mostrar o quão chef e mestre você é. Sim, amigo, fazemos isto com frequência. Buscamos todo tipo de fast food para nos afirmarmos como seres importantes, desejosos e alvitrantes. Usamos a mente como papagaio tagarela, buscando lacunas para preencher. Adoramos uma pesquisa, afinal, querem saber o que pensamos. Vasculhamos as roupas da moda no outlet americano, a preços módicos claro, mas só para nos fazer notar na passarela. Lemos livros de séries globalmente famosas – novela da Globo já não é tão impactante –, apenas para fazer parte do contexto. E assinamos o twitter – puxa! quanta tecnologia – simplesmente para assumir a pole digital. Triste prole. Pois é no meio deste furacão, tão furioso como o katrina, que deixamos de lado a credibilidade. É ensaiando ideias, anseios, rejeições e filosofias que plastificamos a alma. Descrédito, antes de má fama ou desonra, é definido como perda ou diminuição da estima. É falta de confiança o nome. Irônico, pois se tudo o que fazemos tem por intuito algum tipo de reconhecimento – de ser percebido pelo(s) outro(s) –, é pela mesma via que nos tornamos menos crédulos de nós mesmos. Está incrédulo? Perdão, olhe para si primeiro. Com olhos de ver, assuma a hipocrisia de querer levar vantagem na vida sem notar que a vida é a sua própria vantagem. Pratique atos generosos fitando os olhos de quem lhe dá a oportunidade de realizá-los. Não esconda suas dúvidas sobre a existência, se há algum sentido em tudo isso, como irá descobrir se continuar esnobe e cheio de certezas? E, por fim, não tema a morte. Como ouvi num belo ensinamento recente, é certo que ela chegará e incerto quando será. Para acreditar em você jogue fora o que deseja que os outros joguem. Não adianta notar suas necessidades quando está necessitado. Ofereça enquanto puder, preocupe-se com os outros enquanto está sem preocupações, alivie o sofrimento enquanto não sofre e ame tudo enquanto está vivo.

©Este post é um compromisso pessoal, não leve com você se não estiver preparado. Mas se estiver, abrace-o com plenitude e realize a verdade dentro de você. Que todos os seres possam se beneficiar.





Mudança de Habitat

23 10 2009

Um prisioneiro habita uma cela que ele mesmo construiu. Suas atitudes prévias de roubar ou matar, hábitos que provavelmente recebeu de outra pessoa, são como tijolos que se agrupam até que uma nova realidade se crie. Antes de escrever este texto, o post anterior pedia justamente isso: que as pessoas se pronunciassem antes do conteúdo final, que mudassem o seu hábito. O meu amigo Jaime foi o único, dentre as centenas de acessos, que o fez. Talvez pela amizade, talvez porque se sente a vontade no meu habitat digital. Sim, a relação de dependência entre hábito e habitat vai além da semântica. O hábito gera o habitat e o habitat mantém o hábito. Como seres humanos temos alguns hábitos. Prazer em nos alimentar, prazer em fazer sexo, prazer em ser reconhecido como alguém importante, prazer em fazer compras e etc; são hábitos convencionais. Mas há outros hábitos que nos revelam menos prazeirosos. Somos habituados a julgar, a punir, a acusar, a mandar, a negar e outras formas ignorantes de trabalhar a nossa mente. Estes hábitos são verdadeiras pedras ilusórias no caminho da felicidade. Agimos assim porque a história humana criou o hábito, e consequentemente o habitat, de sobrepujar seu semelhante e todos os seres que habitam o mesmo planeta. Pior do que a experiência de um fumante ou um alcoólatra, que sabe o quanto suas atitudes serão prejudiciais no futuro, toda a humanidade é viciada em manter o hábito das não virtudes que limitam a mudança para um estado de plenitude maior. Quem pensa que este habitat é o único possível, certamente não se deu conta de quantos estados sua mente já vivenciou. Da compleição em êxtase do bebê que mama no seio da mãe ao ódio de ser privado de qualquer prazer mundano, quem nunca experimentou as ambivalências? Nem um, nem outro transformam. Ambos são hábitos que geram habitats. E como somos levados como náufragos em um mar revolto, nosso tempo na terra se torna a cada dia mais escasso e mais fútil. O homem vive em busca de novos mundos pelo espaço sideral. Mas bastaria apenas invadir o espaço mental. Nele se encontra os hábitos que precisamos quebrar para descobrir um novo habitat. Olho para fora e vejo uma lagartixa mantendo seus hábitos alimentares com vários bichinhos seduzidos pelo poder da luz. Ela está de barriga cheia, satisfeita. Mas não tem a menor noção de que vive no meu habitat. E você, onde vive de fato?

©Texto a ser publicado na próxima edição do jornal O Local. Que todos os seres possam se beneficiar.





Mudança de Hábito

11 10 2009

Escrever num blog é um hábito. Acordar, tomar o café e trabalhar, além de todas as atitudes comuns da vida, são apenas hábitos. Achar a vida bela, sorrindo para tudo, ou infeliz, caindo em depressão, também são hábitos, mentais. Se você tem o hábito de deixar mensagens para posts que já estão prontos e acabados, chegou a hora de mudar. O que é hábito para você? Em alguns dias retorno para mudar o meu hábito; ler seus comentários antes de finalizar este post. Abraços!

O complemento deste post se encontra a seguir, leia!

©Que todos os seres possam se beneficiar.





eccorretto

20 09 2009

eccorrettoUm único verso é preciso para perceber o Universo. Porque nele está contido aquilo que versa uníssono. Através do som, propaga o verbo. Mas quando um verbo é falado, nada de fato é propagado. Pois, se ao ressoarmos um verso criamos um mundo, quando o verbo se cala tudo dissipa. A palavra é livre em essência, e por isso liberta. Esse é o poder da fluência, como um rio que leva vida e frescor ao sabor dos ventos. Mutante, quando se forma em poesia é belo. Quando se constrói em conceito é argumento. E quando entra na prosa é desperdício. Se está preocupado com a gramática, cuidado, é quase presunção. Toda regra há excessão. Porque a regra é uma forma. E a forma que se escreve e se lê, é como a forma que se olha e se vê. Num momento fatual e consistente, noutro ilusória e impermanente. Perene somente é a natureza da mente. Vazia, serena, bondosa e constante. Mas basta um barulho horripilante, um uivo errante, um bobo falante e uma formiga pedante que logo perdemos a clareza quietante. A vida sopra assim, ecoando palavras, enunciando verbos, evaporando pensamentos. E como pensar é refletir sobre si mesmo, fazer eco do que é correto é agir com amor e compaixão que dão a volta no mundo e retorna a ti com a mesma intensidade. Pois, deixar de reverberar tsunamis de ignorância e desespero é um primeiro passo – fácil por sinal – que todos deveriam fazer para ver brotar um planeta melhor, no presente. Sim, porque do reverberante também respandece luz e sabedoria. Basta apenas você entoar o mantra certo e tudo se transforma. “No princípio era o Verbo” (João 1:1). Proferido em Sílaba, acrescento. E por causa disso tudo, hoje vou tomar uma Tônica.

©Este texto, a ser publicado na próxima edição do jornal “O Local”, é uma homenagem aos meus amigos Andrea Turquetti e Ricardo Mendes que estão iniciando a nova marca eccorretto. Muito mais que uma divulgação de seus trabalhos, que também são lindos, é uma atitude de fazer ecoar suas aspirações para que o mundo ganhe atenção ecológica e social, para que todos os seres possam se beneficiar.





Raça Man

1 09 2009

O maior artista pop do mundo não poderia viver até 2010. Além de seu talento nato para cantar, compor, dançar, produzir e inovar, ele foi responsável pela transformação mais impressionante que o planeta viu. De black power se tornou uma espécie de andrógino branco saído das telas de Blade Runner. Suas raras aparições na mídia nos últimos tempos e os supostos escândalos sexuais do ídolo, nunca abalaram o que ele representava como ícone da era pré-replicantes. Cheguei a refletir, certa vez, sobre a razão dele nunca ter sido confrontado por lideranças negras americanas, ou mesmo africanas, pela sua possível posição autoracista. Ao contrário, ele sempre foi acolhido e aclamado pela comunidade negra nos quatro cantos do globo. Sim, porque a acidez da mente racista não é algo que conseguimos compreender de imediato. Ela vem disfarçada de discursos e até muita lógica e razão. Racismo, por princípio, possui um ideal de superioridade. E todos nós, pela nossa frágil natureza humana, já tivemos momentos assim. Seja com um cãozinho, seja com um pedinte no farol. Entretanto, o que acontece com o povo negro, penso, vai além da vida de Michael Jackson. O continente africano possui o fardo do racismo de longa data. Desde as infindáveis batalhas territoriais de seus aborígenes, até o mercado negreiro estabelecido pelos europeus na expansão de seus domínios; o que este povo sempre sofreu é sinal de um sombrio estado de consciência. E aqui, música, movimento e racismo se encontram mais uma vez em prol da elevação espiritual, da consciência negra. O que está por trás da filosofia Ratafári, do reagge de Bob Marley, da urbanização sonora do Cidade Negra, do Blues do Mississipi ou da Georgia, do samba de raiz tupiniquim, da guitarra de Jimi Hendrix, da voz de James Brown e do Seu Jorge, da maestria de Gilberto Gil e da genialidade do Pelé; é a mesma sabedoria. Todos, como o garoto Michael, nos mostram como é belo poder ser “Black or White” – sim, vale a pena ouvir a canção – sem medo, sem superioridade. Tornar-se branco não é, de forma alguma, uma atitude racista. Sentir-se negro, através da arte, do futebol e da música, muito menos. Quem assim enxerga, preso a estética externa, precisa olhar para dentro da sua alma analisando os motivos de tal pensamento. Há algo de superioridade ali dentro. Para finalizar, explico a primeira frase deste texto. Ano que vem a Copa do Mundo será na África, pela primeira vez na história. Se Michael Jackson estivesse vivo, não teríamos a chance de homenagear sua história transformando um país de hegemonia negra em uma festa de todas as cores, com todas as raças. Desejo com todo amor e compaixão que 2010 seja um ano de mudanças na consciência humana.

©Este post foi inspirado em um pedido da Tatiana, leitora deste blog, para comentar sobre o novo disco do Natiruts, “RaçaMan”. Só pelo nome do álbum, que mistura tudo, raças e línguas, nem é preciso comentar muito. Mas ao ouvir “Sorri, Sou Rei”, imaginei que poderia ser uma homenagem ao Rei do Pop, um verdadeiro raça man da igualdade, quando o refrão diz: “Quando você se foi chorei, chorei, chorei. Agora que voltou sorri, sorri, sou Rei”. Que todos os seres possam se beneficiar.