Não sei quanto a você, mas no último dia útil de janeiro de 2010 já não posso garantir que recordo de tudo o que foi pensado, sonhado e desejado como votos de fim de ano. Dizer que o mundo está mais rápido é apenas aplacar uma verdade que está mais dentro do nós do que lá fora. Não recordamos os nossos sonhos porque quando eles acontecem, como agora que escrevo este texto, acreditamos que eles são palpáveis, duráveis e perenes. Não são. A natureza do sonho é sutil, leve e flutuante. Para se tornar duradouro e atravessar décadas, o sonho precisa ser sempre lembrado como uma canção que não sai da cabeça. Nosso investimento primordial deveria ser garantir uma memória mais forte, plena e alerta, que pudesse atravessar nossa mente a cada instante, avaliando a qualidade de todos os pensamentos que brotam. “Isso é bom, quero continuar lembrando. Isso é neutro, não tem porque perder tempo. Isso é ruim, ops, que tal um pouco de atenção para não permitir os sonhos ruins aqui dentro?”. Para alguns, essa mecânica do pensar pode parecer tediosa, enfadonha e sem açúcar. Geralmente, esses são os métodos que adotamos quando não queremos nos abster do desejo. Daquela vontade que é até mais um hábito de consumo do que um insight experimental. Ao colocar em foco um objetivo desejado, nos entregamos aos prazeres sensoriais que ele proporciona e deixamos de lado a lembrança do que foi sonhado como positivo em nossa vida. Ou seja, o sonho sensorial é mais profundo, mais intenso em termos de prazer e de sensibilidade; porém, tão sedutor que nos retira justamente a noção clara de estar dentro dele. É o casulo do embrião, que se forma sem a consciência do que acontece a si mesmo. Ou não é assim que você se sente em relação ao seu nascimento? A teoria aqui, portanto, é clara: não podemos acordar do sonho quando imergimos nele. A entrega aos seus prazeres sensitivos são grilhões da mente inerte e dormente. Do poço retiramos a água, mas nunca a sede. Afinal, quantos sonhos já não recordamos em busca de um simpless copo para beber?
©Este post é uma homenagem a Sra. Leni, mãe de 3 filhos e que vive num casebre construído em cima de uma calçada na periferia da zona sul de São Paulo. Seu sonho hoje é profundo, mas sua vida poderá servir de inspiração para milhares de pessoas ao redor do mundo, se um dia ela despertar. Agradeço por ter me recebido com tanto amor e esperança. Que todos os seres possam se beneficiar.

Um único verso é preciso para perceber o Universo. Porque nele está contido aquilo que versa uníssono. Através do som, propaga o verbo. Mas quando um verbo é falado, nada de fato é propagado. Pois, se ao ressoarmos um verso criamos um mundo, quando o verbo se cala tudo dissipa. A palavra é livre em essência, e por isso liberta. Esse é o poder da fluência, como um rio que leva vida e frescor ao sabor dos ventos. Mutante, quando se forma em poesia é belo. Quando se constrói em conceito é argumento. E quando entra na prosa é desperdício. Se está preocupado com a gramática, cuidado, é quase presunção. Toda regra há excessão. Porque a regra é uma forma. E a forma que se escreve e se lê, é como a forma que se olha e se vê. Num momento fatual e consistente, noutro ilusória e impermanente. Perene somente é a natureza da mente. Vazia, serena, bondosa e constante. Mas basta um barulho horripilante, um uivo errante, um bobo falante e uma formiga pedante que logo perdemos a clareza quietante. A vida sopra assim, ecoando palavras, enunciando verbos, evaporando pensamentos. E como pensar é refletir sobre si mesmo, fazer eco do que é correto é agir com amor e compaixão que dão a volta no mundo e retorna a ti com a mesma intensidade. Pois, deixar de reverberar tsunamis de ignorância e desespero é um primeiro passo – fácil por sinal – que todos deveriam fazer para ver brotar um planeta melhor, no presente. Sim, porque do reverberante também respandece luz e sabedoria. Basta apenas você entoar o mantra certo e tudo se transforma. “No princípio era o Verbo” (João 1:1). Proferido em Sílaba, acrescento. E por causa disso tudo, hoje vou tomar uma Tônica.