A verdadeira liberdade

Nas últimas semanas tirei férias do corre-corre turbulento da vida diária. Uma maneira convencional de conquistar a liberdade, nem que seja apenas por poucos dias. O destino foi inspirador: os Estados Unidos da América. Não que eu seja apaixonado pelo império global, mas poder conhecer mais desta cultura que se autoproclama “terra da liberdade” é sempre uma viagem libertadora, se pudermos comparar com a nossa visão. Por isso, resolvi escrever para você sobre diversos insights e pensamentos que “construí” durante minha estada. Não sei quantas serão as matérias, mas enquanto tiver assuntos que sejam ricos de conteúdo e de capacidade de reflexão, fique tranqüilo que saberá na íntegra. Enfim, o primeiro tema é justamente a liberdade, simbolicamente representado pela famosa estátua americana que no último domingo fez 121 anos. Descobri por lá que esse monumento foi um presente da França para os Estados Unidos em homenagem ao centenário da conquista da independência americana, em 4 de julho de 1776 (se conseguir, veja na foto a inscrição JULY IV MDCCLXXVI cravada no livro em sua mão esquerda). Oferecida pelo imperador Napoleão III, sobrinho do notório Napoleão Bonaparte, foi inaugurada em 28 de outubro de 1886 com uma grande festa popular. Em todo o mundo, a Estátua da Liberdade é reconhecida como o maior símbolo dos Estados Unidos e, devido sua história, representa a liberdade contra a opressão das massas. Tudo isso é muito bonito e emocionante quando se ouve, com fone de ouvido, o guia de áudio que custa 5 dólares e exibe falas empolgantes do momento histórico. Mas ao olhar para o modelo de vida do americano médio é fácil notar algo que não combina com esse discurso. Apesar da liberdade americana estar calcada em pilares que valorizam o pensar e o agir com livre arbítrio – realmente a gente encontra de tudo o que se pode imaginar nos EUA, desde produtos a estilos diferentes –, as entranhas da nação estão presas a um carma onde a felicidade é um estado de espírito consumista que rouba a liberdade de simplesmente viver, sem o compromisso de ser ou ter algo valioso. É impressionante sentir a força do capital como motor social influenciando todos, de residentes a turistas, a comprar tudo, de mercadorias a sonhos. Histórias não faltam para contar. Por exemplo, conheci uma brasileira de classe social pobre que virou dona de empresa em apenas 5 anos. Ela anda cheia de ouro pra cima e pra baixo e tem paixão pelo estilo de vida yankee. Mas também há muitos outros que continuam lutando atrás do balcão depois de anos, acorrentados à velha ilusão de conquistar a América. O comum, entretanto, é vermos as lojas lotadas de gente e centenas de pessoas andando com sacolinhas pelas principais avenidas de Manhattan, como se a vida se resumisse a isso: trabalhar e consumir. Não posso negar, entrei na onda também, nem que fosse apenas para sentir com mais intensidade aquela vibração; mas sempre com um filtro que era ativado a noite, na hora do banho quente no hotel. A contrapartida era refletir sobre a natureza do nosso povo, da pobreza à simplicidade. O fato de não termos bens e riquezas materiais com essa facilidade pode ser um sinal de liberdade. Obviamente, não estou querendo minimizar a injustiça social que precisa de solução. Mas a verdade é que o brasileiro substitui a carência material pela alegria, pelo o sorriso no rosto e pelo contato afetivo com as outras pessoas. E esse modelo, para quem valoriza as profundezas da alma, é o que melhor representa o verdadeiro significado de ser livre. Talvez seja por isso que o nosso principal símbolo para o mundo seja o Cristo Redentor. Ele sim, simboliza a liberdade plena e perene de acolher todos de braços abertos. 

©Texto publicado no jornal Grande SP em outubro de 2007.

◊A estátua da Liberdade completou 121 anos no dia 28 de outubro de 2007.

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