Robôs, memórias e presente

Olá, leitor. Quando fui convidado pelo meu amigo Guilherme Thies, editor deste jornal, para escrever uma coluna sobre marcas e comunicação, a primeira coisa que pensei foi: será que as pessoas querem mesmo ler sobre isso? Compre isso, experimente aquilo, etc, etc, etc. Que fique claro, sou publicitário! Escrevo conceitos, campanhas de propaganda e promoção todo dia. Mas não sei ao certo se o tema agrada, quando o objetivo é ler uma coluna jornalística. O raciocínio é simples. A comunicação empresarial é desenvolvida com o propósito de fazer as pessoas comprarem seus produtos, ou seja, é “papo de vendedor”. (atenção, nada contra a profissão que, afinal das contas, eu também exerço). E por mais que você ache divertido assistir a um filme publicitário de 30 segundos na TV, não é a mesma coisa que curtir o DVD da sua banda preferida, certo? Pois é, mas existe um lado da comunicação que pode ser muito interessante se você observar com atenção o que está por trás dela. Como um termômetro social, ela sinaliza como lidamos com as coisas do dia-a-dia. Mais que isso, ela expõe a filosofia contemporânea mais atual que existe da humanidade. E, nesse caso, falar sobre marcas ganha um status muito diferente do esforço em vender produtos. É possível, por exemplo, perceber que uma empresa de whisky utiliza a sensibilidade de um robô para mostrar que os executivos estão se robotizando, de tanto trabalhar. A campanha é linda. Um robô em uma biblioteca virtual diz que ele tem mais capacidade de realizar operações do que você, mas não sabe o que é ter sentimentos, esperanças e angústias que resumem o sentido da vida – não vou contar tudo, quem não viu, acesse o youtube.com e pesquise “keep walking”. E isso é verdade. Quando chego no escritório de manhã, dezenas de executivos marcham com destino ao seu posto de batalha. Quase se atropelam no entra e sai do elevador. Ninguém fala bom dia ou sorri. E muito menos sente a presença de outro ser humano, igual a ele, ao seu lado – bom, agora sim, chegamos ao ponto onde desejo estar em todos textos que publicar aqui. Através desta campanha, podemos perceber que a humanidade vive cada vez mais automatizada em processos inúteis. Levantamos da cama sem perceber que ainda estamos sonhando. Andamos nas ruas sem levar em conta que a vida está passando a cada segundo. E voltamos para casa sem o prazer de experimentar o sabor de cada instante. Gilberto Gil, genial como sempre, escreveu a música “cérebro eletrônico” em 1969, prevendo mais do que a simples evolução da tecnologia. Sua letra mistura a sensibilidade de falar da morte, valorizando a vida focada na experiência emocional que só nós, seres humanos, temos – escute a música no site do Gil em www.gilbertogil.com.br. Você também sente isso? Então, responda a si mesmo agora: como você está vivendo a sua vida? Seu cérebro é eletronicamente cego e prático? Ou você também é vivo pra cachorro para saber que o futuro e o passado não são um presente? Acessar memórias é uma função do computador. E desejar tudo lá na frente é apenas projetar um filme no telão. Por isso, pare tudo neste instante e sinta seu coração bater. Respire fundo e solte o ar como se a expiração fosse a coisa mais valiosa do mundo. Pronto. Bem-vindo ao presente! 

©Texto publicado no jornal Grande SP em outubro de 2007.

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