Dois lados da mesma moeda

Como diz o ditado popular, tudo tem pelo menos dois lados. E, dando seqüência ao prometido no artigo anterior, hoje vou contar mais sobre a terra do Tio Sam para você. Nosso tema tem como enredo um assunto que adoro: cinema. Não é segredo para ninguém que os Estados Unidos são a maior potência cinematográfica do mundo. Muitos pensadores modernos acreditam que sua força imperialista se deu, justamente pela invasão dos roteiros hollywoodianos mundo afora. Será? É difícil responder a essa questão com absoluta certeza. A história recente da globalização nos mostra que o controle da comunicação é fundamental para o sucesso de qualquer liderança. Mas expõem também que guerras, terrorismo e ações militares também podem facilmente dividir a responsabilidade de levar o estado americano ao controle mundial. Entretanto, acredito que há um meio de se proteger dessa loucura informativa que nos assola diariamente. O segredo é manter a observação atenta, sem se deixar levar integralmente pelas emoções (parece fácil, mas não é). E foi justamente o que fiz nos quase 10 dias na cidade de Orlando, na Flórida. Em meio a muito divertimento, sempre pintava uma visão mais analítica sobre a qualidade da informação que estávamos recebendo. Não foi possível deixar de notar, por exemplo, a imensa diferença que há na linguagem, e principalmente na filosofia, entre dois dos principais estúdios de cinema do país: a Disney MGM e a Universal. De um lado, a própria história de Walt Disney – um visionário – revela o perfil de uma das maiores empresas de entretenimento do mundo. Desde suas obras-primas Mickey Mouse e Branca de Neve, as indústrias Disney não perderam o lema de transformar a vida num grande sonho, onde o final feliz guarda sempre a idéia de que a vida é permanente e eterna. Sob este crivo já passaram centenas de grandes produções como Mary Poppins, E o vento levou, Cantando na chuva, O mágico de Oz, Rocky, Platoon, Alien e os recentes High School Musical e Piratas do Caribe, dentre outros. A comprovação disso a gente tem logo que entra em qualquer parque de diversão da companhia e lê em letras garrafais “Dreams comes true” (o sonho se torna verdade). E eles não estão mentindo. Em poucas horas de brincadeira você se sente pleno e poderoso. Capaz de viver para sempre um grande amor ou a felicidade que pediu a Deus. Nada mal, se um dia você não tivesse que acordar do sonho e encarar a verdadeira natureza impermanente da vida. Talvez seja por isto que o outro grande estúdio que citei acima, tenha um estilo totalmente inverso do seu concorrente. As produções da Universal, e os seus parques, revelam uma predisposição de aplicar o deboche ou o medo àqueles que vivem uma vida de sonhos. E da mesma forma, para observar isso basta rever seus grandes sucessos cinematográficos. Fazem parte do seu acervo desenhos animados irreverentes como o The Cat in the Hat e filmes “espertos” ou impactantes como Twister, Jurassic Park, A lista de Schindler, Apollo 13, MIB – Homens de Preto, A última tentação de Cristo, Munique e Shrek. Este último, claramente uma paródia rasgada dos clássicos Disney, onde os personagens são sátiros e até perversos com o simbolismo sonhador das fábulas. Porém, o fato é que a realidade subversiva apresentada pela Universal também não é uma necessidade na vida das pessoas, muito menos de pessoas comuns como eu e você que trabalham, encontram os amigos e almoçam com a família no fim-de-semana para descobrir o que há por trás dos laços humanos. Para isso, não é preciso tentar a sorte jogando uma moeda para cima, descobrindo se você merece viver a ilusão do sonho ou a hipocrisia da zombaria. Basta você entrar num labirinto. No Labirinto do Fauno do cineasta mexicano Guillermo Del Toro.

©Texto publicado no jornal Grande SP em novembro de 2007.

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