Amor ao Próximo

Quem experimenta o amor pelo menos uma vez na vida não quer viver um segundo sem ele. Não sou sentimentalista, nem leitor ávido de livros sobre relacionamento amoroso, mas há um tipo de amor que me conquista. Aquele que pode ser praticado por qualquer um em favor de todos os seres. Sim, amor altruísta. O altruísmo é uma definição criada pelo filósofo Augusto Comte, por volta de 1830, mas sua existência é tão distante quanto a própria vida humana. Ela é base da nossa natureza. Entretanto, nos tempos modernos parece que ganhou um status de preciosidade, sendo difícil notá-la no nosso tumultuado dia-a-dia. É raro ver uma pessoa que se preocupa com seus semelhantes, com um amor totalmente desinteressado. Quando há desinteresse na “jogada”, é sinal de que a gente nem se importa com o outro, e aí, já não há mais amor. Quando comecei a assistir ao filme “Once” (Apenas uma vez, 2007), do diretor irlandês John Carney, não imaginava terminá-lo com uma lição altruísta. E melhor, uma lição dada a dois, através da interpretação dos incríveis músicos; Glen Hansard – líder da banda The Frames – e Markéta Irglová, uma suave cantora tcheca. O título do romance sugere pelo menos uma bela cena de amor não altruísta, como é clássico em roteiros do gênero. Mas não é isso que segura nossa atenção pelos 86 minutos do enredo. Com linguagem indie, “Once” cativa logo na primeira cena. Um músico-compositor nas ruas de Dublin, com leve pinta de mendigo, oferece solitário uma linda canção a espera de alguma alma passageira, após o rompimento com sua namorada que vive em Londres. E ela aparece, na forma de uma jovem mulher do leste europeu. Além de música – pianista –, ela também foi abandonada pelo marido e mora com a pequena filha e sua mãe num cubículo suburbano. Mas toda a pobreza material é recompensada pela riqueza de espírito. Narrado através de músicas compostas por Hansard (escute as músicas aqui e não deixe de assistir os extras do DVD), o roteiro é simpless. Mostra a evolução do amor através de atitudes de generosidade, acima até do amor carnal que ambos parecem sentir nascer. Mas não se trata de escolher entre a abstinência do prazer e do envolvimento espiritual. Ambos personagens ainda sentem a “perda” de seus respectivos parceiros. Porém, mesmo assim não deixam de lado a possibilidade de amar de forma altruísta e a força deste amor transborda pela tela de um jeito contagiante. Sem moral no final, nem dramalhão nos momentos mais depressivos, “Once” deixa um ensinamento: independente do seu amor pessoal é possível desenvolver o amor altruísta. Além disso, o desejo que sentimos no final, de que os personagens fiquem juntos, é ainda mais sedutor. Porque descobrimos claramente que colocar uma pitada de altruísmo no meio de nossa vida amorosa pode tornar tudo mais gostoso e cheio de vida a dois. Passamos a querer para nós esta felicidade. E para isso, só precisamos olhar para o lado. Afinal, o “próximo” nem sempre está tão longe quanto parece.

Dedico este artigo a minha esposa Marisa. Que possamos olhar nosso amor com muito altruísmo, deixando de lado o amor próprio para dedicar mais tempo ao amor próximo, o verdadeiro amor com propriedade.

®Publicado hoje no Jornal O Local.

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