Doença, Envelhecimento e Morte

Quando o príncipe Siddartha saiu de seu palácio pela primeira vez, que fora construído como um verdadeiro paraíso por seu pai, ele viu três coisas que mudaram a sua vida. No meio do povo, conheceu a doença em corpos quase putrefatos, descobriu a velhice que aflora sem pestanejar e desvendou o destino daqueles nascem nessa vida: a morte. Hoje, após uma semana infernal promovida por uma pneumonia atípica, sinto-me ressurgir do mundo dos inválidos com o espírito renovado. O fardo, pela mente que o vive, enfraquece aquilo que mais prezamos. Não foi difícil perder o sentido de compaixão nas horas de dor, nem ignorar que milhares de pessoas morriam em Gaza naqueles mesmos instantes. O sofrimento é um apego do ego, que reduz a dor apenas ao que o “eu” sofre. Foi então que decidi, de coração aberto, mentalizar e orar por todos os seres que estivessem em condição igual ou pior que a minha. Não me importava o que sentia, nem as alucinações febris que me arrematavam de tempos em tempos. Milagrosamente, enquanto o fazia, a dor e as confusões se dissipavam aos ventos. Pude sentir, mesmo que por segundos, o alívio de outras mentes ao redor do planeta se tornando remédio para a minha alma. Não posso negar que a estupidez tenha sido a grande companheira do sofrer. Mas os lampejos de lucidez espiritual transformados em verdadeira compaixão extirparam de mim muito do medo de morrer. E sentado na sala, após dias de cama, finalmente assisti, ainda tossindo, ao “Ensaio sobre a cegueira”, de Saramago. Se a doença é o prenúncio da morte física, não enxergar é o mesmo para a morte espiritual. Estive enfermo, mas não cego. E apenas isso é suficiente para me trazer felicidade temporária e definitiva.

©Que todos os seres possam se libertar.

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10 thoughts on “Doença, Envelhecimento e Morte

  1. ainda bem que ficou bom! realmente, não deve haver pior do que a cegueira espiritual!
    por coincidência, hoje mesmo decidi ver o filme do Meirelles também! Se for tão bom como Cidade de Deus, tiro definitivamente o meu chapéu imaginário à frente dele, do realizador!!!!!!!!!

  2. Bom totalmente ainda não estou. E a prisão domiciliar é perigosa, pois vicia.
    Curiosa sincronicidade, não? Além de vermos o mesmo filme, o inconsciente coletivo é justamente o ponto em que retornei ao livro do Amit Goswami. 😉

  3. ahah é Braga pois, onde é que fui buscar Vieira? muito estranho! a cabeça prega-me partidas, mau sinal! acho que alice vieira é uma escritora.
    já lhe tinha dito que traduzi o livro do Paulo Lins para romeno? 🙂 foi uma grande experiência passar noites em branco ao lado do Zé Miúdo 😉 e do Pardalzinho, a tentar perceber o que queriam dizer 🙂

  4. Não sabia, Clarisa. Puxa, deve ter sido uma experiência e tanto! Bom, essa é uma grande oportunidade para lhe contar também que estou escrevendo um livro. Quem sabe não o traduz também, para um lançamento simultâneo?! Que achas da idéia?

  5. wow, boa sorte com o livro! 🙂 se dependesse de mim, gostava da ideia da o traduzir! mas a pior parte é convencer uma editora a mexer-se… há uns 3 anos que espero por uma resposta a propósito dum escritor português que eu adoro, até disseram que estão interessados e que sim senhor, vemos publicá-lo na roménia, mas entre a teoria e a prática há um caminho comprido a percorrer.
    mas quem sabe…

  6. Sei como é, por cá é a mesma história. Ainda estou na metade, mas logo que tiver o texto na íntegra vamos falar, ok?! Sincronicidades não são fatos curiosos e sem sentido, mas a pura sabedoria falando em nossos ouvidos. Fica bem! Bjs.

  7. eheh, é giro ter o Traffic Feed, não é? ficou viciado também? 🙂 é estragar um bocado a privacidade das pessoas, mas tem piada (por exemplo, se alguém quer entrar “undercover” num blog, o james bond por exemplo, já não pode 🙂 )

  8. Muito giro! Vi no seu blog e pensei, será que funciona mesmo? Confesso que não tive tempo de olhar com calma o histórico, mas certamente é interessante saber quem passa por cá. Mr. Bond ainda não deu o ar de sua graça, mas quem sabe um dia desses um texto sobre espionagem o atrai! 😉

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