A Evolução do Intelecto

A primeira vez que li o título do livro do meu amigo Marcos Vinícius Ferraz, “Indivi Duo”, ainda no início da década de 90, sabia que a dúvida me acompanharia por muitos anos. Por se tratar de uma obra poética, não havia o compromisso de responder ao paradoxo. Porém, a meu ver, a divisão da palavra era (e é) brilhantemente sedutora para um aprofundamento filosófico. Das teorias evolutivas à visão espiritual, muito esforço interno foi preciso para encontrar uma explicação apaziguante. E o próprio tempo evolutivo foi crucial para elucidar a questão. Afinal, não se trata aqui de um enigma intelectual. De fato, é o intelecto o maior desafio a se quebrar quando se procura pela resposta a dualidade. Se a palavra dividida questiona a sua bipolaridade como EU e DEUS, a própria divisão é o erro. E ver isso muda a palavra para “indivisível”. O princípio é simples, mas há uma tremenda coragem no processo. Para encontrar a resposta é preciso abandonar a idéia do EU como algo que existe. Você deve estar se perguntando: como assim, eu não existo? Este cara está ficando louco? Não é bem isso. A noção de EU é ilusória. Nós não somos, nós estamos existindo durante algum tempo que tem data de validade. Mas há algo que “existe” como verdade e isso é a base de tudo. No budismo é a vacuidade (para se aprofundar aconselho procurar um Lama realizado). Já os físicos modernos dão o nome de consciência quântica. Mas é uma só realidade. E acredito que estamos em uma época onde muitos seres a estão descobrindo. Uma espécie de evolução da própria consciência que se auto-ajusta num novo padrão de percepção. Talvez seja por isso que você está lendo este texto. Para finalizar, acho interessante contar um acontecimento que você pode comprovar no post anterior. Enquanto elaborava internamente o conteúdo deste, recebi uma mensagem sobre um espiritualisma ocidental moderno: Eckhart Tolle. Gostei muito da sincronicidade e, dentre muitos artigos, encontrei um trecho de uma entrevista sobre o surgimento de uma nova espécie de seres humanos, que conclui este pensamento com maestria. Segue, com desejo de beneficiar todos os seres: “A nova espécie não necessita de inimigos, drama ou conflito para dar-lhe um sentido de identidade e assim, torna-se livre, em grande escala, do conflito e do sofrimento causado pelo homem, que é uma característica da velha consciência. Buda teve uma bela perspectiva disso, quando disse, para descrever o estado de consciência da liberação, que ela é livre do sofrimento – você não sofre mais. Pode ainda haver dor, porque enquanto houver corpo físico haverá dor, você pode ter uma dor de dente. Mas o sofrimento psicológico é causado pela entidade do eu na cabeça. Você não mais causará sofrimento para si próprio através das estruturas do pensamento. E quando você não mais causa sofrimento para si, não mais causa sofrimento para outros. A interação entre seres humanos não será mais coberta pelo medo, como é agora – o medo e o desejo, dois movimentos de estado inconsciente. A interação humana será caracterizada pelo amor e compaixão. E o amor não será do tipo “preciso de você, não ouse abandonar-me, porque eu não sei o que vou fazer se você me deixar”, o amor da chamada velha consciência. Amor é simplesmente reconhecer o outro como sendo você próprio, o reconhecimento da unidade é amor. E todas as interações, quando se reconhece o outro como você próprio, não mais acontecem através da formação de uma imagem, uma identidade da forma, de quem aquela pessoa é. E porque você vai além da identificação da forma em si própria, não mais constrói pequenas armadilhas e pequenos conceitos de outras pessoas… então o amor reina. Não se pode conceber o que seria o mundo se uma grande parte da humanidade vivesse nesse novo estado de consciência. Eu não faço, geralmente, considerações sobre esse fato. Minha suposição sobre isso é de que não seria possível reconhecer a estrutura da natureza humana. Seria muito diferente. Potencialmente este planeta poderia ser o paraíso – é um paraíso, mas as pessoas se esforçam muito para torná-lo um inferno, contudo ainda é um belo paraíso. Não estou dizendo que no nível da forma não haverá limitação, sim, as formas ainda vêm e vão. Mas ainda assim a harmonia é possível, viver em harmonia com a natureza. Viver em um estado de amor, amando a essência de cada forma, pois a vida se manifesta através de milhões de formas de vida. Amando uma vida da qual milhões de formas são manifestações temporárias, amando-as como a si próprio, sendo elas – esse é o novo estado de consciência.”

Você se identificou com o texto? Então, leia a entrevista completa com Eckhart Tolle. Aproveito também para deixar um abraço ao meu amigo Marcos Ferraz. E um agradecimento especial a Clarisa Lima, que me apresentou virtualmente o Eckhart.

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3 thoughts on “A Evolução do Intelecto

  1. Sorri aos montes com esse blog. Estamos na seiva do conéctar – na teia das telas, transcrevendo, trans-missão (batalha viva). Já é. Pois há a era do já era!

    “Era Nova” de Gilberto Gil:

    Falam tanto numa nova era
    Quase esquecem do eterno é
    Só você poder me ouvir agora
    Já significa que dá pé

    Novo tempo sempre se inaugura
    A cada instante que você viver
    O que foi já era, e não há era
    Por mais nova que possa trazer de volta
    O tempo que você perdeu, perdeu, não volta
    Embora o mundo, o mundo, dê tanta volta
    Embora olhar o mundo cause tanto medo
    Ou talvez tanta revolta

    A verdade sempre está na hora
    Embora você pense que não é
    Como seu cabelo cresce agora
    Sem que você possa perceber
    Os cabelos da eternidade
    São mais longos que os tempos de agora
    São mais longos que os tempos de outrora
    São mais longos que os tempos da era nova
    Da nova, nova, nova, nova, nova era
    Da era, era, era, era, era nova
    Da nova, nova, nova, nova, nova era
    Da era, era, era, era, era nova
    Que sempre esteve e está pra nascer

    Falam tanto.

  2. Olá, Victor. Obrigado pelas sutilezas. 😉 E me parece bem claro a sua colocação, apoioada em uma bela música do Gil. “Nova Era” é uma letra de 1977 que, segundo o próprio Gil, “é uma crítica à idéia de sempre se querer decretar a disfunção de certos tempos e prescrever a vigência de outros; de se buscar instalar um novo ciclo histórico, um “novo início”, seja do ponto de vista religioso ou do político, idéia presente tanto no sonho da era de aquário (tematizada mais claramente pela canção) como no sonho revolucionário de esquerda – em todos os messianismos, enfim.” Ele afirma que “querer uma ‘era nova’ ou ‘o fim da história’ (referência à sua outra música de 1991) – o começo ou o fim -; são duas pontas de um mesmo absurdo.” Vale ressaltar que essa “era” (anos 70, 80) foi um tempo de muito enfoque “intelectual”. Porém, o autor ainda cita parte importante da sua canção. Segundo ele “a canção trata da imperceptibilidade da passagem do tempo, mais exatamente ‘da ambiguidade eternamente presente em nós de termos em relação ao tempo uma percepção e uma não-percepção: a de que ele passa quando pensamos e a de que ele não passa quando não pensamos – isto é: ‘sem que você possa perceber’. Curiosamente, no mesmo disco (Refavela, 1977) há outra canção que trata a mesma questão com um enfoque diferente. Em “Aqui e Agora”, o mestre Gil valoriza a percepção de que “o melhor lugar do mundo é aqui, e agora. Aqui, onde indefinido. Agora, que é quase quando. Quando ser leve ou pesado deixa de fazer sentido.” Descobri, então, que o best seller do Eckhart fala justamente disto. Sob o tema “O Poder do Agora”, parece não fazer apologia ao surgimento de uma “era nova”, mas sim de uma nova percepção, onde a clareza do presente se torna a única realidade. O que se fala aqui (e também neste blog, que não fala pouco) é justamente sobre a mutação da consciência. Quem não alcança, provavelmente tem um entendimento apenas intelectual. Mas isso não é ruim, nem bom. Apenas é. Abração e volte sempre!

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