Conto da Viagem

Chegar no escritório depois daquele trânsito infernal era um alívio. Apesar das duras tarefas que teria ao dia, provavelmente até tarde da noite, nada podia ser mais insuportável do que olhar centenas de pessoas nervosas com o estado caótico e nebuloso daquela manhã. Mesmo o estacionamento, quente por causa de tanto monóxido de carbono despejado de forma politicamente incorreta, já era um refresco psicológico. Correu até o elevador, que foi espantosamente preso por uma mão desconhecida. Fato curioso, pois no mundo empresarial só existem robôs marchando em direção ao posto de batalha. Entretanto, por mais que tenha agradecido com verdadeira intenção, o máximo que recebeu em troca foi um balançar de cabeça, quase que afirmando a necessidade de reconhecer a cordialidade espontânea. Tudo bem, a atitude também era muito mais agradável que os espíritos raivosos que lá fora mordiam cada centímetro do asfalto. As portas se abriram e seus passos, ainda frenéticos, encaminharam aquele corpo moribundo ao seu destino oficial: o escritório. Passou pela secretária dizendo um “bom dia!” caloroso e caminhou pelo corredor do ambiente fazendo cumprimentos singelos. Ele era um cara querido, não por todos, mas ainda assim recebia algum retorno dos companheiros de labuta. Finalmente olhou sua mesa, cheia de papéis em preto e branco, além de um computador modernoso, cheio de adesivos de restaurantes fast-food. Não que ele fosse consumidor assíduo de plástico alimentar, mas era justamente o aspecto estético que o agradava. Porque todos os computadores eram iguais? Porque não dar um ar de individualidade àquilo que parecia tão sem personalidade, dentro de um lugar que já o é por natureza? E pensando isso pela milésima vez, colocou a pasta de couro ralado em cima da cadeira. Fazia este gesto sempre. Criticava os mecanicistas, mas tinha o hábito cego de criar rotinas. Fazia isso no caminho – aquele, insuportável, descrito acima – na hora de tomar banho, para abrir uma garrafa de vinho, etc. Mas nesse dia foi surpreendido justamente na hora que iria sentar para iniciar mais um dia rotineiro. Seu braço foi puxado por um sujeito desconhecido que mirou fortemente seus rosto dizendo: “- Olá, você foi premiado!”. “O quê?”, pensou o premiado com um estranheza sensação de frio na barriga. “– Isso mesmo meu amigo, sou de uma empresa de viagem que está fazendo uma promoção na sua empresa e sorteamos uma experiência única, para um lugar que é o paraíso, num momento que você já não suporta mais esse dia-a-dia cruel e sanguinário!”. “Nossa!”, refletiu o famigerado sortudo. “– Mas a boa notícia você ainda não sabe…”, continuou o vendedor nato, “…o senhor nem vai trabalhar hoje!”. “Bom, então…”, tentou continuar o homem, mas foi interrompido novamente, como se já soubesse sobre a dúvida: “– Sim, sim, mas você nem precisa pegar a mala em casa… lá tem tudo o que você precisa, fique tranquilo!”. Nocauteado – essa é a palavra certa –, simplesmente, então, o asbismado deixou todos os seus pertences e pensou, pelo menos, em ligar para seus pais, já com 70 anos de idade, para contar a novidade. Porém, mais uma vez foi impedido com palavras de sedução turística. A verdade é que a sua vida tinha tanto sofrimento, mas tanto sofrimento, que aquilo parecia um sonho, um puro estado de deleite. Assim, aceitou ser levado pelo braço esquerdo sem pestanejar. No dia seguinte, todos os colegas do escritório receberam um cartão com notícias. O amigo havia feito uma linda viagem sem levar nada consigo, sem se despedir de ninguém e sem volta.

©Conto, enquanto estiver vivo. E você também, por isso aproveite! Ofereço a todos aqueles que precisam de uma chacoalhada na vida.  

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4 thoughts on “Conto da Viagem

  1. Olá, Pedro. Esse conto é um caso clássico, que milhares de pessoas já passaram. O fim, por princípio, não é o término de tudo. Afinal, nós, leitores, ainda temos uma história para experimentar. Até quando, não sabemos. Mas ao cair a ficha da “lei da impermanência”, é como se acordássemos de um sonho. O fato é que sempre somos carregados pelo “agente de turismo” quando não aproveitamos a vida plenamente. E o problema não é morrer, mas viver a vida como um moribundo. Ou seria… morribundo? Ehehehe… Abração, muito bom rever seu nome por aqui!

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