Conto da Despedida

Obscurecido pela luminosidade que era projetada em seu rosto, o sujeito, pálido, não conseguia ver nada além de quadros coloridos com conteúdo que ele mesmo havia criado. Cenas da infância lhe vieram ao pensamento quando viu, num tom de cenoura ralada, a estampa dos seguintes dizeres: Seus Registros. Em sequência quase cronológica, pelo menos era isso que lhe parecia, cada passo seu era mostrado com extrema precisão que só “Ele” era capaz de saber. Os momentos de lazer, os árduos trabalhos focados no crescimento do business e até os desejos libertinosos eram expostos sem reserva, nem fôlego. Enquanto o show visual acontecia, uma voz masculina, forte, séria e marcante, pontuava os assuntos com moralidade e extremo vigor: “Você foi displicente em X% do seu tempo, deixou de apoiar os companheiros em situações cruciais e acessou sites pornográficos em demasia…”. O timbre chegava a audição provocando um desconforto indescritível. Como era angustiante rever o passado assim, tão cruelmente. A velocidade da informação também o anestesiava. Flashes sequênciais em alta velocidade não davam respiro. E a pergunta pelo motivo de tal exposição não acalmava seu espírito nebuloso. Era mortificante! Não se sentia nada obsoleto, pelo contrário, tinha muito ainda para fazer. Mas parecia que estava sendo simplesmente descartado sem pudor, sem que a sua história tivesse valor. Com certeza seria lembrado pelos amigos como um cara de bom feitio, honesto e humoristicamente interessante. Afinal, tinha deixado boas lembranças, seja nas conversas do meio-de-tarde, seja no ardente e inesquecível romance que tinha com a mulher que mais mexeu com sua paixão. “Ah, como foram gostosos aqueles olhares cruzados. Que tesão era sair com ela a noite, depois de um dia estressante, para transar frenéticamente até a madrugada… e depois bebericar juntos um café da manhã no Hotel de costume”. Ela, que permaneceria ainda nesse universo, certamente não esqueceria isso, jamais! Mas não era somente o prazer que era deixado para trás. Milhares de idéias marcadas por ideais de confiança e determinação estavam sendo abandonadas, quem sabe esquecidas para sempre. E o sonho de oferecer ao mundo sua maior contribuição – implementar uma ação social para acabar com a fome mundial – apodrecia como bilhares de sementes que são abandonados em celeiros ao redor do planeta. Que tristeza, anos de esforço terminando assim, sem mais nem menos, de forma súbita. O saldo final, entretanto, não tinha um resultado nítido, nem objetivo. Claro, o que é resultante de tudo que fazemos se não um grande vazio? Existir e não-existir fazem parte do mesmo prato que servimos e provamos. E uma despedida é somente uma transição de grão, de um lugar para outro, experimentado de tempos em tempos. Uma lágrima escorreu pelo seu coração. A projeção se encerrou. Uma luz forte o iluminou. E só restou uma atitude, agradecer tudo o que aprendeu naquela empresa multinacional.

©Corporações, sonhos e despedidas confusas são temas de um dos roteiros mais brilhantes que já vi. “Abre los Ojos”, de Alejandro Amenábar e Mateo Gil, ganhou as telas em 97, e posteriormente viria a se tornar o conhecido filme “Vanilla Sky” (2001). Todas as despedidas são dolorosas, porque são envenenadas pelo desejo. Mas todas podem ser vividas com graça se você aprender mais sobre a impermanência. Que todos os seres possam se beneficiar.

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4 thoughts on “Conto da Despedida

  1. olá, Ricardo, aqui fala a visita com o número 3666!!!
    é mesmo meritória a sua intenção de abrir os olhos às pessoas, pelo menos tentar fazê-las pensar! os meus parabéns!
    agora vou ver o que se diz sobre a impermanência (na Samsara).
    obrigada!

  2. Oi, Clarisa. Seu comentário é muito importante para mim. Apesar de tantas visitas, você é uma das pessoas mais assíduas no blog. Obrigado. Espero estar sempre apto a oferecer reflexões a todos. Há um grande prazer em beneficiar os seres, as palavras se transformam em pura energia. Dizer mais é racionalizar o inexplicável. Seja sempre bem-vinda!

  3. Ricardo, não confunda a escassez de comentários com a falta de leitores ou de compreensão da parte deles. mais cedo ou mais tarde, aquilo que escreve tem “eco” na mente de alguém. mesmo sem feed-back da parte das pessoas, elas pensam nos assuntos (ou não). e os temas dos seus posts não são fáceis, alguns são mesmo difíceis de digerir e sabe muito bem disso. mas eu tento 🙂 porque sei que a mensagem é sempre positiva e que… existe sempre uma mensagem inteligente.
    🙂

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