Pobre de Doer

Era uma garota podre de pobre. As colegas da escola invejavam tudo o que ela não tinha. Sua falta de jaquetas de marca, sua certeza de não depender de nada para ser feliz. Era comum escutar, na vila onde morava, comentários curiosos a seu respeito… “nossa, tão humilde que dá raiva!”. Os vizinhos mais próximos, então, nem se fala. Viviam querendo saber o que ela não comprava… “e aí, não viu nenhuma sacolinha da Gang na mão dela não?”…“nem uma sandalinha havaianas essa antiperua comprou?”. Muitos achavam que ela fazia cena. Era um jeito fácil de escapar do desejo de ser podre de rica, sonho de muitos que ali moravam. Até sua mãe chegou um dia a colocá-la na parede, questionando o por quê dela ser tão presunçosa. E só não lhe bateu no rosto pois a irmã mais velha interveio, segurando a mão materna com o dedo em riste. Era triste, sua atitude modesta revelava a miséria daqueles que a cercavam. Sua postura singela era como uma faca de arrogância apontada para aqueles corações mesquinhos. Como poderia ela, pobre de nascimento, pura de necessidades materiais; ser tão livre da mendicância banal? Como poderia ser tão rica de propósito? Seu silêncio era ainda mais ensurdecedor. Provocava um ruído nas míseras mentes que a rodeavam. Por isso, não era incomum ver-se desprezada como restos jogados às moscas. Mas a menina tinha sonhos. Eram secretos, pois seria um risco revelá-los. Toda noite sonhava com um castelo dourado onde moravam seres virtuosos, cheios de potes de ouro. Sua certeza de que a fartura era tão ilusória quanto a privação era a chave de todo o mistério. Um dia, entretanto, bem no meio do sonho, teve uma idéia brilhante. Iria tentar levar para sua vida diária um pouco do ouro que ali tinha em abundância. E, então, acabaria com a miséria que assolava sua vila. Para tal, dirigiu-se para o rei do castelo, que lhe deu a seguinte resposta: “Você pode levar quanto ouro desejar para a pobre vila, mas ao fazê-lo nunca mais irá acordar lá. Viverá para sempre aqui, neste sonho”. A menina pensou, pensou e decidiu aceitar. Não pelo fato de viver em meio a riqueza, pois realmente aquilo não a importava. Mas por oferecer ao seu povo toda a fortuna que desejavam. E na manhã seguinte o que se viu foi digno das melhores fábulas. Em sua cama, feita de pau-a-pique e coberta com uma fina manta de algodão sujo, toda a família, os vizinhos e até os mais distantes moradores viram a menina deitada, gélida e amarela, virar um corpo dourado precioso, do mais reluzente ouro. E sentiram dor em ver nascer da pobreza um ato nobre. E se envergonharam em derreter a jovem num ato pobre.

©Que todos os seres possam se beneficiar.

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2 thoughts on “Pobre de Doer

  1. Motta querido,

    Obrigada pelo recadinho no blog. Adorei!
    Eu já acompanhava o seu. Já fazia parte dos meus favoritos, mas nem sempre dá pra deixar recadinhos.
    Gosto muito do que você escreve e da poesia da sua alma.
    Espero que contagie muita gente, porque é disso mesmo o que a gente anda precisando: de poseia…

    Beijos!

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