Raça Man

O maior artista pop do mundo não poderia viver até 2010. Além de seu talento nato para cantar, compor, dançar, produzir e inovar, ele foi responsável pela transformação mais impressionante que o planeta viu. De black power se tornou uma espécie de andrógino branco saído das telas de Blade Runner. Suas raras aparições na mídia nos últimos tempos e os supostos escândalos sexuais do ídolo, nunca abalaram o que ele representava como ícone da era pré-replicantes. Cheguei a refletir, certa vez, sobre a razão dele nunca ter sido confrontado por lideranças negras americanas, ou mesmo africanas, pela sua possível posição autoracista. Ao contrário, ele sempre foi acolhido e aclamado pela comunidade negra nos quatro cantos do globo. Sim, porque a acidez da mente racista não é algo que conseguimos compreender de imediato. Ela vem disfarçada de discursos e até muita lógica e razão. Racismo, por princípio, possui um ideal de superioridade. E todos nós, pela nossa frágil natureza humana, já tivemos momentos assim. Seja com um cãozinho, seja com um pedinte no farol. Entretanto, o que acontece com o povo negro, penso, vai além da vida de Michael Jackson. O continente africano possui o fardo do racismo de longa data. Desde as infindáveis batalhas territoriais de seus aborígenes, até o mercado negreiro estabelecido pelos europeus na expansão de seus domínios; o que este povo sempre sofreu é sinal de um sombrio estado de consciência. E aqui, música, movimento e racismo se encontram mais uma vez em prol da elevação espiritual, da consciência negra. O que está por trás da filosofia Ratafári, do reagge de Bob Marley, da urbanização sonora do Cidade Negra, do Blues do Mississipi ou da Georgia, do samba de raiz tupiniquim, da guitarra de Jimi Hendrix, da voz de James Brown e do Seu Jorge, da maestria de Gilberto Gil e da genialidade do Pelé; é a mesma sabedoria. Todos, como o garoto Michael, nos mostram como é belo poder ser “Black or White” – sim, vale a pena ouvir a canção – sem medo, sem superioridade. Tornar-se branco não é, de forma alguma, uma atitude racista. Sentir-se negro, através da arte, do futebol e da música, muito menos. Quem assim enxerga, preso a estética externa, precisa olhar para dentro da sua alma analisando os motivos de tal pensamento. Há algo de superioridade ali dentro. Para finalizar, explico a primeira frase deste texto. Ano que vem a Copa do Mundo será na África, pela primeira vez na história. Se Michael Jackson estivesse vivo, não teríamos a chance de homenagear sua história transformando um país de hegemonia negra em uma festa de todas as cores, com todas as raças. Desejo com todo amor e compaixão que 2010 seja um ano de mudanças na consciência humana.

©Este post foi inspirado em um pedido da Tatiana, leitora deste blog, para comentar sobre o novo disco do Natiruts, “RaçaMan”. Só pelo nome do álbum, que mistura tudo, raças e línguas, nem é preciso comentar muito. Mas ao ouvir “Sorri, Sou Rei”, imaginei que poderia ser uma homenagem ao Rei do Pop, um verdadeiro raça man da igualdade, quando o refrão diz: “Quando você se foi chorei, chorei, chorei. Agora que voltou sorri, sorri, sou Rei”. Que todos os seres possam se beneficiar.

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