Súplica a Tara*

Ô Mãe Salvadora,

Que me ouve com amor e compaixão,

Quais são os grilhões,

Que me prendem a atenção?

Por isso peço a ti,

Com imensa gratidão,

Haja com veêmencia,

Mostre-me com decisão,

Cada passo no caminho,

Em busca da Iluminação.

Sou tolo, inábil e cheio de confusão,

Mas contigo em meu topo,

Renasço em profusão.

Ensina-me com diligência,

Oriente-me com resolução,

A ti estou atento,

Exercitando a prostração.

Quando temo sem lembrar,

De toda sua educação,

Limpe-me os olhos,

Da visão ignóbil,

Que só gera apego e aversão.

Mantenho-me forte, firme e resoluto,

Enxergando o concreto e o dissoluto,

O vicioso e o virtuoso,

O mundano e o espirituoso,

Hoje, até a hora do luto.

*Tara é conhecida como a mãe de todos os Budas. Ela representa a perfeição da mente iluminada manifestando-se em uma forma feminina. Tara é atividade e energia iluminadas, demonstrando a perfeita manifestação de sabedoria, além de qualquer conceito.

©Que todos os seres possam se beneficiar.

De Compor

Tornar-se líquido, incolor.

Depositar o medo e a dor.

Deitar-se com fé e fervor.

Vamos todos decompor.

Das ruínas erguem-se as mudanças.

Das calamidades, restam-se as lembranças.

Do último ser, brotam-se as esperanças.

Um dia voltamos como crianças.

Antes de compor, somos só pó inodor.

Antes do pôr, tudo está no breu gerador.

Antes do ser, tu és apenas sonhador.

Vamos todos recompor.

Cidades inteiras vão desaparecer.

A internet é feita para não ceder.

Na hora h é preciso saber,

Só a realidade básica, devemos reconhecer.

Haverá um dia transformador,

Um instante mágico, se assim for,

Único, pleno e indolor,

Célebre é aquele sem temor.

Falo sem trauma, nem rancor,

Com pena do outro que se for,

Ouvindo com olhos de pavor,

O que é seguro de supor.

Mas não acredite que fácil esse solo,

Nem suponha ingênuo, que és tolo,

É chegada a hora de escolher do bolo,

O sabor que levarás em teu colo.

Antes de decompor até a morte,

Conte com a vida e com a sorte,

Encontre paz e uma digna consorte,

E celebre a compaixão pura, firme e forte.

©Possam todos os seres se beneficiar.

Respiração Espiritual

Encho o peito de ar e solto, expelindo junto com o gás carbônico algumas esperanças de descobrir a essência na vida. Sim, nossa mente também respira. Quando recebemos qualquer forma de aprendizado, geralmente retornamos ao modus operanti de outrora. Esses vícios são objetos da memória, aspectos construídos pela mente no passado, que renascem sob a forma de movimentos, falas e pensamentos baseados na ignorância. Quando perdemos a cabeça, tudo fica menos. Tudo se torna obscuro, chato, penoso e temos vontade de detonar até o mais singelo comentário feito por um colega de trabalho. Como numa guerra, aqui travada num cenário silencioso, o que devemos fazer é manter o estado de alerta usando da estratégia da sabedoria para alcançar a vitória. Abro o livro de SS, o Dalai Lama e leio o que vem a seguir: “A dificuldade de uma interpretação puramente materialista da vida é que, somada ao fato de ignorar toda uma dimensão da mente, não lida de modo eficiente com os problemas dessa vida. Uma mente materialista é uma mente instável, pois sua felicidade é construída sobre circunstâncias transitórias, físicas. A doença mental é tão alta entre os ricos quanto entre os pobres, o que é um claro indicativo das limitações dessa abordagem. Embora seja essencial manter-se uma base material razoável para viver, a ênfase na vida deve ser cultivar as causas mentais e espirituais de felicidade. A mente humana é muito poderosa e nossas necessidades mundanas não são tão grandes que devam demandar toda a nossa atenção, especialmente à luz do fato de que sucesso material resolve apenas uns poucos desafios e problemas enfrentados por homens e mulheres durante toda a vida, e não faz nada por eles na morte. Entretanto, ao se cultivar qualidades espirituais como harmonia mental, humildade, desapego, paciência, amor, compaixão, sabedoria e assim por diante, fica-se equipado com um vigor e inteligência capaz de lidar de modo eficiente com os problemas dessa vida; e, como a riqueza que se está amealhando é mental em vez de material, não terá que ser deixada para trás na morte. Não há necessidade de se entrar no estado pós-morte de mãos vazias.” Com a mente se abrindo, fecho o livro. Sinto novamente os ventos sutis preencherem o meu espírito. E recordo a frase do Buda lida páginas atrás: “Aquele que teme quando não há motivo para temer é um tolo. Aquele que não teme quando há motivo para temer é um tolo. Ambos saem do caminho.” É difícil se deparar com a própria tolice. Mais tolo que isso é aceitar a instabilidade mental. Nosso esforço para sair de estados mentais ilusórios deve ser igual ou superior ao nosso desejo de respirar após o parto. Lembre-se disso quando necessário!

©O livro citado tem o título “O Caminho para a Iluminação”, de SS, o Dalai Lama. Que todos os seres possam se beneficiar.

Um meio de ser inteiro

Vivemos no meio de tudo. No meio de um monte de trabalho. No meio de uma vida atarefada. No meio de dúvidas e certezas. No meio de uma briga ou no meio do seio do amor. No meio da raiva. No meio do trânsito, insâno. No meio do banho, sonhando. No meio das férias, que estão chegando. Ou mesmo, no meio da refeição saborosa, que deixa a gente assim, meio gordo. Estamos sempre no meio, inseridos sem nenhum tipo de aceitação prévia ao meio que foi criado, por algo que não conhecemos nem pela metade. Meio estúpido, não? Viver no meio de uma situação que nem sabemos o que é, nem porque existe. Por isso, andamos por aí, meio perdidos, meio angustiados, meio grosseiros com as vicissitudes do caminho. E o caminho, do meio, nasceu de um estado de iluminação. Nem a corda frouxa, nem esticada, ao meio. Projete agora com a sua mente, sua vida, do meio para o fim. Todos os meios que hoje você utiliza para ser feliz lhe trarão paz e tranquilidade? Não vale meias respostas. Quando você realiza o todo, o copo não fica nem meio cheio, nem meio vazio. Apenas é um copo.

©Sentindo a vida ficar meio estranha. Que todos os seres possam se beneficiar.

Néctar

Quando o peso da realidade fecha a fenda que nos transporta para o absoluto é preciso uma atitude sublime. Um toque de leveza coloca fim a avareza espiritual, mesmo que relativamente tudo se mantenha difícil e árduo na dimensão mortal. Não há luta mais bela que essa, silenciosa e tumultuada ao mesmo tempo. Sábios de todos os universos e todas as direções, por favor, alimentem meu espírito com o néctar da nobre transcendência do caminho do meio.

®Para que todos os seres possam se beneficiar.