Esvazie seu copo

Hoje não escrevo para ensinar. Nem para analisar de forma simpless, o que possa achar complexo. Não falo do porrão ou de qualquer vaso que contenha algo. Não expresso dor nem alegria. Não preencho a alma de nenhum tipo de substância. Não quero ver o mundo colorido e nem me interessa se é preto no branco. Não estou chateado, nem ranzinza. Não tenho esperança nem medo. Não divido a morte da vida. Hoje estou isento até do imposto de renda. Hoje, diferente do que ouvi outro dia, não preciso de um mundo; pois o mundo está contido dentro do vazio. Hoje, só espero que você – seja quem for e qual motivo tenha para estar aqui – saiba entender destas palavras. Pois se o mundo está contido num vazio; só por este vazio, ele pode estar contido. Esvazie seu copo, esvazie seu corpo e do mundo todo será preenchido.

©Possam todos os seres se beneficiar.

Tsunamis Mentais

Iniciei este blog com a forte convicção de não escrever nada que não sentisse verdadeiro. Nada que fosse medíocre no sentido de crença. E por isso peço desculpas àqueles que solicitaram em vão novas publicações nos últimos meses. O fato é que senti-me completamente envolvido pela onda tsunâmica que assolou minha mente em deveres, atos e construções aspiracionais. Sim, enquanto o tsunami físico destrói milhares de estruturas de concreto e madeira, avassala vidas em instantes e invade o terreno seco; o tsunami mental é uma prolífera construção de imagens, sensações, anseios e desgostos numa turbulência incapaz de domar, pelo menos para mim. Surge de forma incerta, como o outro. Devasta a felicidade, como o outro. E creio vividamente que pode matar, dependendo da incapacidade de controle da alma envolta em suas ondas mentais. Da mesma forma que um corpo que rola batendo contra tudo em extrema violência no tsunami marítimo, sem conseguir dar as mãos para outras pessoas na catástrofe, a mente que se desestabiliza com a frequência alucinante de eventos sequênciais não consegue parar o movimento natural do fenômeno, seguindo só até que a turbulência termine. Na percepção emocional, muitos são os sentimentos que regem a experiência. Aflições repentinas, angústias inexplicáveis, violência imediatista, estado depressivo, euforia, desejos intensos, visão persecutória e vazio existencial são alguns deles. Na maioria das vezes sem razão aparente, mas que, por não conter um objeto causador tão nítido pode ser direcionado para qualquer um que funcione como descarga. E é assim que procede a onda mental tsunâmica. De ser em ser a energia é passada volupta e abruptamente, sem passar por transformações internas que sejam capazes de controlar seu avanço. Nosso despreparo em reconhecer as características da energia, da mesma forma que não sabemos lidar com a água quando ela escorre das nossas mãos, sãos as causas de toda dor e sofrimento. Reconheci esta verdade nos últimos dias e constatei que a carência de qualquer atividade espiritual pelos fatores que descrevi é sinal de que você está no meio de um oceano de incertezas, onde tudo pode acontecer. Dizer mais é abrir as comportas.

©Que você possa orar um minuto, ao menos, pelo Japão. Possam todos os seres se beneficiar.

 

Nó ou dó?

O nó que segura o barco é o mesmo que reflete na margem da vida. Sua reflexão é espelho do que foi devidamente entrelaçado previamente. Ao olharmos para ele como um entrave, deixamos de notar justamente sua principal matéria prima, frágil e dissoluta. Quem já tentou desatar um nó complexo sabe o que falo. Você procura qual o início de todo o emaranhado e acaba apenas encontrando duas pontas, que não necessariamente levam ao centro do enlace. Mas se tiver alento para desmanchar cada pequena amarra com tranquilidade, logo o conjunto se mostra menos invencível. Não digo que é fácil, ao contrário. Quem encontra sua nau com qualquer obstáculo que impeça o seu progresso, imediatamente sente a angústia de ver-se inoperante, inerte e debilitado. A saúde é um deles. A separação entre os seres é outro. E a exploração financeira, tão praticada pela humanidade, é mais um exemplo de embaraços que serão refletidos nas plácidas águas dos homens, mais dia, menos dia. E do nó devemos ter dó. Sim, porque a responsabilidade de todos os entraves que aparecem somos nós e nossas pobres mentes que se aferram diariamente ao objetivo de obter felicidade momentânea, sem perceber que aquela que nos prende hoje à tristeza foi exatamente esticada, fixada e herdada pelos mesmos atos viciosos no passado. Tenho dó, não de nos ver sofrer mais uma vez agora; mas pelo que vejo que iremos encontrar no futuro, de ponto cruz em ponto cruz. E para minha alma, talvez, esse seja o verdadeiro nó górdio. É dele que me vejo obrigado a destrinchar cada instante, quando um ser se mostra em apuros à minha frente, um amigo divide um problema delicado, ou até quando descubro meus próprios elos perdidos, nossos bastardos inglórios, na gíria de Tarantino. Entre o nó ou a dó, escolho a libertação de não ser apenas só. Se você me lê com atenção e consciência, é bem provável que também note como está laçado neste mundo em que vivemos. E como ele parece ter um destino tão mais enroscado se não tomarmos providências claras. Comece já a desatar os nós: evite o sentimentalismo da pena, não busque culpados fora de você, elimine a mágoa, ajude quem está ao seu redor, não julgue e ofereça, ofereça e ofereça; alimento, palavra e compaixão, respectivamente, e além do sentido óbvio do seu significado. Por fim, não espere nada em troca, apesar do que virá.

©Este texto não é protesto, nem objetiva que você se torne um salvador de almas. Se algo lhe tocou, apenas comece olhando quem está com você neste exato minuto. Depois, avance com o mesmo propósito, no tempo que lhe resta nesta vida. Que todos os seres possam se beneficiar.

Papai Noel existe?

É Domingo. Sentado na sala, folheio um jornal qualquer em busca de algum sentido para todas as incertezas da vida. Sem muita atenção, apenas leio os títulos, analisando a mesmice gramatical e a imprudência ao abordar o que é sério com displicência. No meio do processo meu filho entra na sala com um papel sulfite A4 em suas mãos. O papel está desenhado com motivos natalinos e recordo a ocasião. Com um lindo sorriso no rosto, usual e característico, ele se vira para mim e diz… “Pai, olha que carta bonita o Papai Noel me escreveu o ano passado!” Ele se aproxima mais e relembramos o dia em que a carta chegou, junto com o presente almejado. Hoje, era dia de escrever uma nova carta ao bom velhinho, como a tradição manda. E nesta época é comum fazermos uma lista de opções, já que Papai Noel precisa entregar milhares de presentes numa só noite. “Como ele consegue papai?” …esta indagação já partiu de suas reflexões várias vezes. Mas a magia é a própria essência da vida. Ou não somos nós que construímos tudo o que nos rodeia? Sim, somos surpreendidos por centenas de “pacotes”, entregues todos os dias em nossas mãos. Um café da manhã bonito, um abraço na hora da despedida, uma atenção quando estamos tristes. Quem será que embala tudo isso e nos entrega a cada minuto? Vejo em meu filho as dúvidas que reinam em todos nós quando não entendemos a sutileza com que a realidade é formada. Papai Noel é somente um símbolo deste agrupamento, um argumento criativo que nos impele a acreditar na força da bondade, nossa verdadeira natureza. Volto os olhos ao Daniel e percebo suas construções mentais. Ele sonha, literalmente, como se estivesse na Terra do Nunca. De repente, vira novamente seu espírito transparente e comenta atento… “Nossa, pai, o Papai Noel desenha tão bem e faz tudo tão bonito…” …em casa, sou eu quem o ensina a desenhar e pintar… “…e olha como a letra dele parece com a sua!” …acho engraçado, afinal, ele está chegando aos 10 anos e começa a desconfiar e questionar aquilo que não é palpável; e completa… “Papai Noel existe?” Não desvio o olhar e apenas confirmo positivamente, com todo o amor que sinto por ele. E essa certeza é simpless, pois sua fantasia é mais verdadeira do que a visão materialista. Se algo existe na mente, então existe! E se ainda é um objeto de generosidade, melhor ainda! Porém, num desejo de formalizar racionalmente sua existência, complemento erroneamente… “quem você acha que compra todos os presentes para as crianças?” A resposta não poderia ser mais sublime… “Pai, o Papai Noel não compra, ele faz os presentes!” A magia volta a invadir meu coração. Feliz Natal.

©A beleza do Natal está no presente, na capacidade de sentir afeto e compaixão hoje! Que todos os seres possam se beneficiar desta verdade.

Inscrições

Atos são marcas cravadas na alma dos seres. Nossa epígrafe é como uma inscrição rupestre, escrita na natureza. Um dos ensinamentos do Buda conta que a cólera pode ser entendida através da superfície que ela é registrada: na rocha, na terra ou na água. Aquela que é parecida com à inscrição na rocha fica frequentemente zangada e sua cólera perdura por longo tempo, como o traço que na pedra fica e não é apagada pelo vento ou pela água. Há também os seres parecidos com à inscrição na terra. Estes, frequentemente também são tomados pela raiva, mas sua cólera é rapidamente apagada pelo vento, pela água ou pelo tempo; como o solo que foi marcado mas logo se desmancha. Por fim, há aqueles que são como à inscrição na água. Embora lhe falem grosseiramente e com aspereza, nenhuma rudez permanece. Pois, justamente como o desenho na água, que logo retorna ao natural e não se fixa por muito tempo; ela é facilmente reconciliada, tornando-se agradável e amiga. E você, como vem escrevendo suas inscrições?

©Extraído do livro “Ensinamentos do Buda, Uma antologia do Cânone Páli“, Nissim Cohen, 2008. Que todos os seres possam se beneficiar.

“A vida é muito curta para faltas de esclarecimento.”

Os conflitos que vivemos no nosso dia-a-dia, não são nada mais do que a expressão da nossa mente que será tocada no momento da morte. Deixar de esclarecer os mal-entendidos que vivemos hoje é deixar que o mesmo estado retorne futuramente, no bardo do estado intermediário ou em outra vida. No fundo, estamos bem e felizes, mas é só aparecer o espelho do carma negativo que somos engolfados pela sua força. A mente alerta evita isso, sermos novamente levados pelos vícios e velhos hábitos da mente.

©Que todos os seres possam se beneficiar.

Casar Ditos

Hoje escrevo o que sinto. Não minto. Gosto de vinho tinto. Sei que o universo é finito. Abissal, absinto. Vejo as críticas como instinto. O prazer como recinto. A dor como extinto. E o amor, esse sim, infinito. Hoje, agora, me permito; gozar a vida, praticar o rito. Abandonar o medo, maldito. Enfrentar a dúvida, não finto. Servir aos seres, benditos. E uma transformação, pressinto. Estão nascendo os obeliscos, que logo vão unir todos os distintos.

©Assista “O Casamento de Rachel”, do excelente diretor Jonathan Demme, com uma brilhante atuação de Anne Hathaway. Uma mistura de graça, raça, laços e esperanças. Mas, principalmente, um ensinamento sobre carma, impermanência, compaixão e vacuidade. Se você não conhece nada sobre isso, e quer saber, acesse o site do Odsal Ling. Que todos os seres possam se beneficiar.