Esvazie seu copo

Hoje não escrevo para ensinar. Nem para analisar de forma simpless, o que possa achar complexo. Não falo do porrão ou de qualquer vaso que contenha algo. Não expresso dor nem alegria. Não preencho a alma de nenhum tipo de substância. Não quero ver o mundo colorido e nem me interessa se é preto no branco. Não estou chateado, nem ranzinza. Não tenho esperança nem medo. Não divido a morte da vida. Hoje estou isento até do imposto de renda. Hoje, diferente do que ouvi outro dia, não preciso de um mundo; pois o mundo está contido dentro do vazio. Hoje, só espero que você – seja quem for e qual motivo tenha para estar aqui – saiba entender destas palavras. Pois se o mundo está contido num vazio; só por este vazio, ele pode estar contido. Esvazie seu copo, esvazie seu corpo e do mundo todo será preenchido.

©Possam todos os seres se beneficiar.

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Inóspito

Parei por aqui ao acaso, motivado por uma mensagem de dúvida.

Respondi de imediato a pergunta, e sem perceber já escrevia.

Senti uma tremenda vontade, de dizer a você o que penso.

Mas sei que o que sinto é segredo, para aqueles que nunca se enfrentam.

Se você é daqueles sem medo, que deseja de fato um abrigo;

Diga logo: eu me rendo!

E abra o peito sem mágoas, confessando ao mundo suas tréguas.

Não há léguas a serem percorridas, se o que corre em sua veia for teia.

©Possam todos os seres se beneficiar.

2012 e o Fim do Mundo

É o fim do mundo pensarmos no fim do mundo quando avaliamos pouco sobre o mundo e sobre o seu fim.

Para mim, por exemplo, é o fim do mundo celebrarmos a virada do ano sem lembrar que milhares de seres humanos não tem nem o que comer.

É o fim do mundo também essa coisa chamada economia global, que tenta ser sustentável sem ao menos descobrir como é possível se equilibrar sem reduzir as injustiças sociais.

Outro fim do mundo é, em pleno 2012, aceitarmos guerras e invasões como a China pratica há mais de meio século no Tibete e outros países na Ásia.

É o fim do mundo a desorientação do oriente médio, o monopólio da indústria farmacêutica e o abuso da oferta de crédito mundo afora.

E é o fim do mundo a mídia viver de tragédias, crises e sofrimentos.

É o fim do mundo os impostos nacionais, o inexplicável custo dos veículos no Brasil e a postura passiva do brasileiro ao longo da história, que ainda se repete nos dias de hoje.

Mas é o fim do mundo também reclamar sem fazer, pedir sem oferecer, querer sem trabalhar, sofrer sem rezar, amar sem cuidar.

E é o fim do mundo não saber que a vida é valiosa para qualquer um, até para a formiguinha que atacou sua ceia de Natal.

Enfim, é o fim do mundo usar o facebook só para se mostrar e não para compartilhar. E ter meios mentais ou financeiros de colaborar, mas não transformar.

É o fim do mundo não parar para pensar, refletir sobre o que mudar e de fato implementar.

O fim do mundo é, portanto, especular sobre algo que você já sabe a resposta e, mesmo assim, continuar sua vida sem se importar.

Sim, um dia o seu mundo vai acabar, mas até lá você pode ser benéfico a um tanto de gente que precisa de outro fim para seu mundo.

Resta saber se você está a fim de outro mundo já em 2012.

©Possam todos os seres se beneficiar.

Até a Eternidade

Queremos o eterno, mas vivemos do efêmero. Levantamos da cama, mas não acordamos para a vida. Tomamos o café da manhã, mas não saboreamos o simples prazer de estar vivo. Atravessamos trânsitos homéricos, mas não vemos no instante uma odisséia. Trabalhamos para conquistas momentâneas e sofremos quando as perdemos, mas em nenhum momento entendemos que elas são só isso: presença. E se o que temos apenas é presença, como não sentir o amor brotar na aparência de seres que compartilham o mesmo espaço, no mesmo tempo? Eles passam por nós todos os segundos, em circunstâncias diversas. Dizem “bem-vindo, bom dia, olá, tudo bem, como vai… e nos absorvemos novamente no passageiro, e a verdade nos escapa num triz. De hora em hora, então, passamos a olhar o relógio, o futuro, e a certeza do fim se aproxima por baixo do orgulho cego de quem clama por eternidade sem notar que ela passa bem ali, na sua frente. O eterno é só a presença, constante, pura e bela, de um balé de formas, sons e sentimentos transitórios. E para viver até a eternidade, seja eterno e inseparável agora.

©Possam todos os seres se beneficiar.

Algo está no ar

Há dias, que escrever é mera parte de mim. E por instantes sou todo palavras, nexos e sintaxe. Não que isso tenha sentido na vida, pois ela é muito mais do que posso dizer. Mas quando digo e não me nego a sentir, vejo pelas letras aquilo que nunca os olhos haverão de perceber. Um semblante de razão, um desejo de oração; é das palavras em meu pulmão que respiro nestes dias. Sim, a sílaba é vento; e nele sopra um saber que orienta o mundo. Atento ao relento, vibrante ou sem fibra, recobro o objetivo de cada tecla premida. Somados à vida, nos traz os motivos pelos quais sorrimos e lutamos, choramos ou largamos, em cada verso sonido, em cada despedida. E sofremos pelo ar que se parte, como a espada que corta o céu zunindo e num segundo decepa a dor do guerreiro ferido. Não há o que ressentir. Para o nada também se vai a fumaça, seja num trago amargo da nicotina, ou no escape encardido do velho carro na esquina; ali se esvai sem pretensão de voltar. Prendo a respiração, sinto uma aflição e solto sem modéstia o carbono, desconhecendo ao certo se é politicamente correto. Mas não é desta inspiração que este texto transpira. Olho para cima, repito o processo e mais uma vez preencho a mente de símbolos e conceitos trazidos dos espaço. Um mosquito voa e ocupa o mesmo ambiente, sem noção, entretanto, de quão valioso o é. Ser não é apenas ter corpo. Ecoar não é apenas ser som. E dou-me conta de que podemos ser como o inseto perdido, que vive a voar sem perceber a riqueza do ar. Pois, por trás da composição, do enredo e da ciência, há uma soberba que devemos aspirar. Sutilmente, observe a mente meditar, a matéria sólida levitar e a consciência, simplesmente se libertar.

©Que todos os seres possam se beneficiar.

Súplica a Tara*

Ô Mãe Salvadora,

Que me ouve com amor e compaixão,

Quais são os grilhões,

Que me prendem a atenção?

Por isso peço a ti,

Com imensa gratidão,

Haja com veêmencia,

Mostre-me com decisão,

Cada passo no caminho,

Em busca da Iluminação.

Sou tolo, inábil e cheio de confusão,

Mas contigo em meu topo,

Renasço em profusão.

Ensina-me com diligência,

Oriente-me com resolução,

A ti estou atento,

Exercitando a prostração.

Quando temo sem lembrar,

De toda sua educação,

Limpe-me os olhos,

Da visão ignóbil,

Que só gera apego e aversão.

Mantenho-me forte, firme e resoluto,

Enxergando o concreto e o dissoluto,

O vicioso e o virtuoso,

O mundano e o espirituoso,

Hoje, até a hora do luto.

*Tara é conhecida como a mãe de todos os Budas. Ela representa a perfeição da mente iluminada manifestando-se em uma forma feminina. Tara é atividade e energia iluminadas, demonstrando a perfeita manifestação de sabedoria, além de qualquer conceito.

©Que todos os seres possam se beneficiar.

O maior peso do mundo é a leveza

Quando escrevo para você, escrevo também para mim. Quando penso em mim, penso também em ti. Quando sei que as coisas estão difíceis ou quando vejo uma luz transbordar em felicidade, sei que a ti e a mim ocorrem no mesmo momento. Conectados por uma ligação além das palavras, sei que andamos paralelamente em busca da felicidade, que já cometemos diversos erros em prol da propriedade e realizamos milhares de atos ingênuos em detrimento de pouca moralidade. Mas o que seria apenas crueldade pode ter um princípio de outra verdade. Mentes conectadas, vivências correlacionadas, são certezas e probabilidades que vivem sempre integradas. Sim, digo isso sabendo da nossa “inoperabilidade” perante um mundo amarrado, sisudo e viciado; que não dá espaço à vã “feliz-idade”. Um mundo tão “i”, interligado, inteligente, informado; tão i-mundo. Onde só se discute o poder do intelecto. Um mundo onde as fronteiras a se desafiar são cheias de descobertas e barreiras filosóficas. Um universo rico em conceitos, semântica e análise. Meu mundo é irreverente, irônico e seletivo. Nele, não estão incluídos espécies de pouco conteúdo sem especulação. Pois nesse mundo, especular se confunde com espetacular. Um mundo onde tudo se compra porque tudo está a venda. Um mundo oriundo da incapacidade de criar mecanismos diferentes para os mesmos problemas. Cego ao ponto de não compreender, com sua gigantesca potência intelectual, que toda discriminação é um ato de aniquilamento futuro. Por que há pobreza? Por que há racismo? Por que há feminismo? Por que há sectarismo? Quem tenta responder sabe o peso da solução, porque há ilusão. O mundo busca hoje a sustentabilidade, ou a habilidade de sustentar. Mas sustentar o que? A pobreza? O racismo? O “achismo”? Ganhar habilidade no sustento apenas é insustentável para ativar as transformações inevitáveis que estão por vir. Mutações genéricas são pouco para a novas formações a surgir. Precisamos intervir, inferir e interferir no sistema revendo valores, pesos e medidas. Necessitamos de atitudes decididas. Fica claro porque a “.banda mais bonita da cidade” teve sua música “oração”, desejada ou odiada. Repito, toda discriminação é um ato de aniquilamento futuro. Espero não estar fazendo o mesmo, mas liberando aquilo que pesa na sua consciência. O maior peso do mundo é a leveza.

©Possam todos os seres se beneficiar.