TV Digital, o verdadeiro Big Brother vai começar

Se você começou a ler este artigo esperando conhecer os novos integrantes da casa mais famosa do Brasil, peço desculpas pelo alarde. O título foi de propósito. O sensacionalismo é uma das grandes técnicas de comunicação para vender. Porém, neste caso, minha intenção não é vender, mas esclarecer. Talvez você não saiba de onde vem a expressão Big Brother. Ela nasceu em 1948, ou seja, irá fazer 60 anos em 2008. E apesar de antiga, seu valor é bem atual. Sua primeira e explosiva utilização se deu no romance “1984” (a troca dos dois últimos dígitos também foi propósito) por George Orwell – pseudônimo do escritor Eric Arthur Blair. A ficção narra a história de um mundo dominado por um regime totalitário, onde todas as formas de liberdade são proibidas pelo Estado através de opressão, tortura e uma guerra sem fim. Ao lado de outros clássicos sociais importantes como “Admirável Mundo Novo” e “Laranja Mecânica”, o romance revela um futuro onde a comunicação estatal se torna onipresente. Em todo lugar são instaladas “teletelas” que, além de exibir a imagem do Grande Irmão (Big Brother), conseguem observar se as pessoas estão agindo conforme a lei vigente. O impacto da obra foi tão forte que a Apple, empresa de tecnologia mais adorada do mundo, lançou seu primeiro computador pessoal, o Macintosh, em 1984, fazendo alusão direta ao filme. E conclui seu comercial com uma frase genial: “Em 24 de janeiro a Apple vai apresentar o Macintosh. E você verá porque 1984 não vai ser igual a 1984.”  – veja o filme publicitário no youtube.com. É neste ponto que fui surpreendido pelo presidente Lula, no último dia dois de dezembro, no lançamento em cadeia nacional da TV Digital brasileira. Seu discurso de facilitar ao máximo a inclusão da tecnologia a uma presença maçica – a nova TV será assistida em todos os lugares, andando na rua, no ônibus, etc – é, no mínimo, perigoso. Se no Brasil ainda não vivemos o espírito de guerra selado no romance de George Orwell, certamente há muitos interesses para facilitar o controle das massas. Pois, num país infectado pela infame cobrança de juros abusivos, pela corrupção desenfreada e pela ineficiência na educação, dar poder demais ao Estado pode ser catastrófico. Como cita o próprio Orwell, no filme cult que foi rodado anos depois, “…de acordo com as leis dos pensamentos duplos, não importa se a guerra (econômica, no caso do Brasil) não é real ou, quando é, que a vitória não é possível. A guerra não é para ser ganha ou perdida, é para ser eternizada. A essência da guerra moderna é que a destruição produz o trabalho ao ser humano. A sociedade hierárquica somente é possível nas bases da pobreza e ignorância. A princípio a guerra é planejada para manter a sociedade à beira da fome. A guerra é a fúria dos governantes contra suas próprias ideologias e o seu objetivo não é a vitória, mas manter a própria estrutura da sociedade intacta.” Para sua existência, o autor criou a Novilíngua, uma língua desenvolvida e manipulada para gerar expressões que não fossem nunca contra o regime. E para funcionar estabeleceu a Polícia do Pensamento, com agentes capazes de perceber até pequenos desejos, como o sexual, que também era proibido. Por isso, antes de correr para a loja de departamentos atrás de seu conversor digital, olhe bem fundo para você e estabeleça um compromisso sério de utilizar a nova TV Digital com parcimônia e discernimento. Caso contrário, será o “Big Brother” que estará de olho em você. 

©Texto publicado no jornal Grande SP em dezembro de 2007.

◊Uma das versões antigas do cartaz do Big Brother e o mapa fictício criado por George Orwell, onde o mundo globalizado seria dividido entre poucas potências.

O espaço entre a guerra e a paz

Acordei cedo, como era de costume na viagem de férias que fazia nos EUA. Abri a porta do quarto do hotel e peguei o jornal USA Today, como já me habituava fazer naqueles dias. Na capa, uma surpresa esperada. A foto do Presidente Bush ao lado do Dalai Lama anunciava a entrega da medalha de honra do congresso americano ao líder Tibetano. Dentro do jornal, muita informação a respeito deste grande evento. A nação mais militar do planeta oferecia um reconhecimento ao maior defensor da paz mundial. Em pauta, além da condecoração, um pedido para que a China pudesse abrir diálogo com os monges budistas tibetanos e sua principal liderança, S. S. o Dalai Lama. A atitude é louvável, o momento discutível. Afinal, a invasão comunista chinesa data de 1951 e o líder do Tibet vive no exílio desde 1959, na Índia. Mas numa época em que a China se torna um dos maiores países em desenvolvimento econômico no mundo, às vesperas de sediar os Jogos Olímpicos de 2008, não é nada estranho uma atitude de embate do império capitalista. A meu ver, ao contrário, revela que tudo tem um preço para o governo americano. Não importa se é uma guerra forjada, como aconteceu com o Iraque para a conquista de petróleo, ou se é uma manobra política em favor da paz, apenas para frear o ímpeto do crescimento chinês. No fim das contas, o que manda na mente de quem controla o mundo é a capacidade de manter tudo sob o seu domínio. E para isso vale investir milhões em grandes aspirações do homem contemporâneo, como a corrida espacial. Além dos 16 bilhões médios anuais, gasto com projetos espaciais, o órgão responsável pela aviação norte-americana – a FAA, Federal Aviation Administration – já prevê a chegada do turismo espacial. Uma nave, a SpaceShipOne da Virgin Galatic (www.virgingalactic.com), espera colocar os primeiros passageiros no espaço em 2009, ao preço de 200 mil dólares por cabeça. Incrível, não? Imagine se todo este dinheiro fosse usado para acabar com a pobreza mundial? Como seria a nossa evolução? Mas não é assim que eles pensam e, para mim, esta gigantesca supremacia é nada mais que ilusão. Pois o verdadeiro espaço a ser conquistado daqui pra frente não é galático nem interplanetário. Não envolve tecnologia de última geração. Não precisa de alto custo financeiro. E não é possível se chegar com naves espaciais. Na verdade, o espaço que a humanidade precisa descobrir já foi conquistado pelo próprio Dalai Lama e os monges budistas que hoje estão em todos os continentes. É um espaço de muita força e luz que consegue distanciar a guerra da paz dentro da nossa mente, colocando o espírito de combate, tão valorizado pela sociedade americana, mais longe do que a terra está do sol. Para desvendar este grande espaço não é preciso dinheiro, não é preciso opressão, não é preciso violência, não é preciso nada que esteja fora de você. Mas é preciso batalhar dentro de si mesmo para conquistar tolerância, paciência e compaixão nas horas mais difíceis e corriqueiras da vida, como as discussões familiares, as brigas no trânsito ou os momentos de tensão e rivalidade no ambiente de trabalho. Infelizmente, muitos líderes mundiais, que aplicam verbas astronômicas na guerra e na descoberta do espaço sideral, não descobriram que a conquista da mente traz mais progresso para os seres humanos. Mas você, que não precisa se preocupar com o controle planetário, pode começar a sua corrida espacial. Controle sua mente com a determinação de um guerreiro e vai conquistar o território mais almejado pelos homens: a paz. 

©Texto publicado no jornal Grande SP em novembro de 2007.

◊Recortes do jornal americano USA Today de outubro de 2007.