Deleite Sutil

Que o tempo tenha nos tirado a infância, temos que aceitar. Que o trabalho tenha nos limado a graça, podemos compreender. Que a mídia tenha nos acelerado a história, só podemos relembrar. Que a tecnologia tenha nos apagado a tinta, também é de se entender. Que a vida tenha se tornada dura, é simples deduzir. Que a comida tenha se tornado plástica, é fácil verificar. Que as guerras tenham nos ferido a alma, é lógico pensar. Que os dias tenham se perdido em nada, é claro perceber. Que a noite tenha se transformado em medo, é triste descobrir. Que o charme tenha se rendido ao podre, é sincero constatar. Que a felicidade tenha se deformado em compras, é rancoroso admitir. Que o amor tenha se vendido às marcas, é doloroso permitir. Que a vida tenha se passado insípida, é nítido comprovar. Mas que tenhamos nos deixados frios e grosseiros, não é passível tolerar. Pois, se alguma coisa ainda devemos ponderar é saber que a sutileza é uma verdade que podemos retomar. Que a seda se tece como o texto se entrelaça e o tecido se fabrica como a mente se processa. Que a generosidade tenha se feito notar, é desse deleite que a gente precisa praticar.

©Possam todos os seres se beneficiar.

2012 e o Fim do Mundo

É o fim do mundo pensarmos no fim do mundo quando avaliamos pouco sobre o mundo e sobre o seu fim.

Para mim, por exemplo, é o fim do mundo celebrarmos a virada do ano sem lembrar que milhares de seres humanos não tem nem o que comer.

É o fim do mundo também essa coisa chamada economia global, que tenta ser sustentável sem ao menos descobrir como é possível se equilibrar sem reduzir as injustiças sociais.

Outro fim do mundo é, em pleno 2012, aceitarmos guerras e invasões como a China pratica há mais de meio século no Tibete e outros países na Ásia.

É o fim do mundo a desorientação do oriente médio, o monopólio da indústria farmacêutica e o abuso da oferta de crédito mundo afora.

E é o fim do mundo a mídia viver de tragédias, crises e sofrimentos.

É o fim do mundo os impostos nacionais, o inexplicável custo dos veículos no Brasil e a postura passiva do brasileiro ao longo da história, que ainda se repete nos dias de hoje.

Mas é o fim do mundo também reclamar sem fazer, pedir sem oferecer, querer sem trabalhar, sofrer sem rezar, amar sem cuidar.

E é o fim do mundo não saber que a vida é valiosa para qualquer um, até para a formiguinha que atacou sua ceia de Natal.

Enfim, é o fim do mundo usar o facebook só para se mostrar e não para compartilhar. E ter meios mentais ou financeiros de colaborar, mas não transformar.

É o fim do mundo não parar para pensar, refletir sobre o que mudar e de fato implementar.

O fim do mundo é, portanto, especular sobre algo que você já sabe a resposta e, mesmo assim, continuar sua vida sem se importar.

Sim, um dia o seu mundo vai acabar, mas até lá você pode ser benéfico a um tanto de gente que precisa de outro fim para seu mundo.

Resta saber se você está a fim de outro mundo já em 2012.

©Possam todos os seres se beneficiar.

Até a Eternidade

Queremos o eterno, mas vivemos do efêmero. Levantamos da cama, mas não acordamos para a vida. Tomamos o café da manhã, mas não saboreamos o simples prazer de estar vivo. Atravessamos trânsitos homéricos, mas não vemos no instante uma odisséia. Trabalhamos para conquistas momentâneas e sofremos quando as perdemos, mas em nenhum momento entendemos que elas são só isso: presença. E se o que temos apenas é presença, como não sentir o amor brotar na aparência de seres que compartilham o mesmo espaço, no mesmo tempo? Eles passam por nós todos os segundos, em circunstâncias diversas. Dizem “bem-vindo, bom dia, olá, tudo bem, como vai… e nos absorvemos novamente no passageiro, e a verdade nos escapa num triz. De hora em hora, então, passamos a olhar o relógio, o futuro, e a certeza do fim se aproxima por baixo do orgulho cego de quem clama por eternidade sem notar que ela passa bem ali, na sua frente. O eterno é só a presença, constante, pura e bela, de um balé de formas, sons e sentimentos transitórios. E para viver até a eternidade, seja eterno e inseparável agora.

©Possam todos os seres se beneficiar.

Quando há sentido?

Vivemos uma vida sem orientação. Nascemos de uma forma confusa. Passamos a infância de uma maneira estúpida. Crescemos na juventude com uma atitude ingrata. Vibramos na vida adulta por um desejo incerto. Adoecemos na esperança de uma sorte inóspita. Envelhecemos na angústia de uma experiência concreta. E morremos na ilusão de uma história cumprida. Em cada fase do viver, deixamos de lado o que poderia nos tornar senhores do destino. Esquecemos, diariamente, de procurar o que eliminaria por completo a confusão, a estupidez, a incerteza, o medo, a desconfiança e a embriaguez. Em algum momento, obviamente; o sentido, a percepção, a clareza, a confiança e o foco se perdeu como uma chama que, soprada pelo vento, deixou no breu todos os navegantes em meio a alto mar. Para retomar o rumo é preciso acender pelo menos uma pequena fagulha que permita alguém encontrar um bastão, amarrar uma estopa, mergulhar num combustível e recuperar a luz e o calor de outrora. Pois, só há sentido quando somos capazes de ver tanto os mapas, quanto a maré, os marinheiros, a bússola, o leme e, mais a frente, o horizonte. Lembrando também, que uma vida é como um dia, resta-nos descobrir em qual fase nos damos conta de que a iluminação se esvaiu. Porque dependendo do tempo a viagem pode se tornar longa ou curta demais.

©Possam todos os seres se beneficiar.

Enquanto ainda há lucidez


O texto era para começar assim… “enquanto o mundo está senil, mostre que ainda há lucidez. Enquanto explode o inglês, seja agente da sensatez. Somos povo criança, aprendemos como se dança, nunca igual aos britânicos ou à França. Passamos períodos de descrença, economia baixa e desavença, mas nunca perdemos a esperança. Isso é de nascença. É tolo não sentir essa presença. Pueril não ter essência.” Mas mudei todo o sentido, do começo até o desfecho. Pois enquanto ainda há lucidez, use a sensatez para dançar uma valsa. Escute a melodia, fuja da fumaça. Brinque de pega e traça. É só estar em estado de graça. Eita coisa boa, fazer rima de coisa tola. Sentir-se um Zé em Pessoa. Alberto, Caeiro, Ricardo, Reis, Álvaro, Campos; qualquer sobrenome ecoa. E enquanto o mundo está senil, viva você a mil, cante dentro de um funil, tinja tudo de anil. Meu Brasil varonil. É de seu semblante que vejo brotar, a chama boa que incendeia, o carinho que clareia, o desejo que tu me queiras. Enquanto explode o inglês, que venha o butanês. Tiremos a timidez, acabemos com a embriaguez. Chegou a nossa vez!

©Imagem: recorte de “Retrato de Jan Švankmajer” em lápis de cor sobre papel. Que todos os seres possam se beneficiar.

Algo está no ar

Há dias, que escrever é mera parte de mim. E por instantes sou todo palavras, nexos e sintaxe. Não que isso tenha sentido na vida, pois ela é muito mais do que posso dizer. Mas quando digo e não me nego a sentir, vejo pelas letras aquilo que nunca os olhos haverão de perceber. Um semblante de razão, um desejo de oração; é das palavras em meu pulmão que respiro nestes dias. Sim, a sílaba é vento; e nele sopra um saber que orienta o mundo. Atento ao relento, vibrante ou sem fibra, recobro o objetivo de cada tecla premida. Somados à vida, nos traz os motivos pelos quais sorrimos e lutamos, choramos ou largamos, em cada verso sonido, em cada despedida. E sofremos pelo ar que se parte, como a espada que corta o céu zunindo e num segundo decepa a dor do guerreiro ferido. Não há o que ressentir. Para o nada também se vai a fumaça, seja num trago amargo da nicotina, ou no escape encardido do velho carro na esquina; ali se esvai sem pretensão de voltar. Prendo a respiração, sinto uma aflição e solto sem modéstia o carbono, desconhecendo ao certo se é politicamente correto. Mas não é desta inspiração que este texto transpira. Olho para cima, repito o processo e mais uma vez preencho a mente de símbolos e conceitos trazidos dos espaço. Um mosquito voa e ocupa o mesmo ambiente, sem noção, entretanto, de quão valioso o é. Ser não é apenas ter corpo. Ecoar não é apenas ser som. E dou-me conta de que podemos ser como o inseto perdido, que vive a voar sem perceber a riqueza do ar. Pois, por trás da composição, do enredo e da ciência, há uma soberba que devemos aspirar. Sutilmente, observe a mente meditar, a matéria sólida levitar e a consciência, simplesmente se libertar.

©Que todos os seres possam se beneficiar.

Súplica a Tara*

Ô Mãe Salvadora,

Que me ouve com amor e compaixão,

Quais são os grilhões,

Que me prendem a atenção?

Por isso peço a ti,

Com imensa gratidão,

Haja com veêmencia,

Mostre-me com decisão,

Cada passo no caminho,

Em busca da Iluminação.

Sou tolo, inábil e cheio de confusão,

Mas contigo em meu topo,

Renasço em profusão.

Ensina-me com diligência,

Oriente-me com resolução,

A ti estou atento,

Exercitando a prostração.

Quando temo sem lembrar,

De toda sua educação,

Limpe-me os olhos,

Da visão ignóbil,

Que só gera apego e aversão.

Mantenho-me forte, firme e resoluto,

Enxergando o concreto e o dissoluto,

O vicioso e o virtuoso,

O mundano e o espirituoso,

Hoje, até a hora do luto.

*Tara é conhecida como a mãe de todos os Budas. Ela representa a perfeição da mente iluminada manifestando-se em uma forma feminina. Tara é atividade e energia iluminadas, demonstrando a perfeita manifestação de sabedoria, além de qualquer conceito.

©Que todos os seres possam se beneficiar.