Tríade

RobotMeditation

A ciência sonha explicar a realidade.

A arte é a angústia de existir ou não de verdade.

A religião é a experiência direta da bondade.

©Possam todos os seres se beneficiar.

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Logo que vier…

Palavras não me cabem mais, mesmo que o silêncio não me ocupe. Quando a resposta é sabida, não há questão que se faça. Mas saiba, então, que nada sabe. Pois saber alguma coisa no tudo que não visto é sentir sabor naquilo que não se prova. O que tem gosto, passa. O que textura, desgasta. E o que tem cheiro, evapora… logo que o próximo clique vier…

©Possam todos os seres se beneficiar.

Até a Eternidade

Queremos o eterno, mas vivemos do efêmero. Levantamos da cama, mas não acordamos para a vida. Tomamos o café da manhã, mas não saboreamos o simples prazer de estar vivo. Atravessamos trânsitos homéricos, mas não vemos no instante uma odisséia. Trabalhamos para conquistas momentâneas e sofremos quando as perdemos, mas em nenhum momento entendemos que elas são só isso: presença. E se o que temos apenas é presença, como não sentir o amor brotar na aparência de seres que compartilham o mesmo espaço, no mesmo tempo? Eles passam por nós todos os segundos, em circunstâncias diversas. Dizem “bem-vindo, bom dia, olá, tudo bem, como vai… e nos absorvemos novamente no passageiro, e a verdade nos escapa num triz. De hora em hora, então, passamos a olhar o relógio, o futuro, e a certeza do fim se aproxima por baixo do orgulho cego de quem clama por eternidade sem notar que ela passa bem ali, na sua frente. O eterno é só a presença, constante, pura e bela, de um balé de formas, sons e sentimentos transitórios. E para viver até a eternidade, seja eterno e inseparável agora.

©Possam todos os seres se beneficiar.

Quando há sentido?

Vivemos uma vida sem orientação. Nascemos de uma forma confusa. Passamos a infância de uma maneira estúpida. Crescemos na juventude com uma atitude ingrata. Vibramos na vida adulta por um desejo incerto. Adoecemos na esperança de uma sorte inóspita. Envelhecemos na angústia de uma experiência concreta. E morremos na ilusão de uma história cumprida. Em cada fase do viver, deixamos de lado o que poderia nos tornar senhores do destino. Esquecemos, diariamente, de procurar o que eliminaria por completo a confusão, a estupidez, a incerteza, o medo, a desconfiança e a embriaguez. Em algum momento, obviamente; o sentido, a percepção, a clareza, a confiança e o foco se perdeu como uma chama que, soprada pelo vento, deixou no breu todos os navegantes em meio a alto mar. Para retomar o rumo é preciso acender pelo menos uma pequena fagulha que permita alguém encontrar um bastão, amarrar uma estopa, mergulhar num combustível e recuperar a luz e o calor de outrora. Pois, só há sentido quando somos capazes de ver tanto os mapas, quanto a maré, os marinheiros, a bússola, o leme e, mais a frente, o horizonte. Lembrando também, que uma vida é como um dia, resta-nos descobrir em qual fase nos damos conta de que a iluminação se esvaiu. Porque dependendo do tempo a viagem pode se tornar longa ou curta demais.

©Possam todos os seres se beneficiar.

Enquanto ainda há lucidez


O texto era para começar assim… “enquanto o mundo está senil, mostre que ainda há lucidez. Enquanto explode o inglês, seja agente da sensatez. Somos povo criança, aprendemos como se dança, nunca igual aos britânicos ou à França. Passamos períodos de descrença, economia baixa e desavença, mas nunca perdemos a esperança. Isso é de nascença. É tolo não sentir essa presença. Pueril não ter essência.” Mas mudei todo o sentido, do começo até o desfecho. Pois enquanto ainda há lucidez, use a sensatez para dançar uma valsa. Escute a melodia, fuja da fumaça. Brinque de pega e traça. É só estar em estado de graça. Eita coisa boa, fazer rima de coisa tola. Sentir-se um Zé em Pessoa. Alberto, Caeiro, Ricardo, Reis, Álvaro, Campos; qualquer sobrenome ecoa. E enquanto o mundo está senil, viva você a mil, cante dentro de um funil, tinja tudo de anil. Meu Brasil varonil. É de seu semblante que vejo brotar, a chama boa que incendeia, o carinho que clareia, o desejo que tu me queiras. Enquanto explode o inglês, que venha o butanês. Tiremos a timidez, acabemos com a embriaguez. Chegou a nossa vez!

©Imagem: recorte de “Retrato de Jan Švankmajer” em lápis de cor sobre papel. Que todos os seres possam se beneficiar.

Algo está no ar

Há dias, que escrever é mera parte de mim. E por instantes sou todo palavras, nexos e sintaxe. Não que isso tenha sentido na vida, pois ela é muito mais do que posso dizer. Mas quando digo e não me nego a sentir, vejo pelas letras aquilo que nunca os olhos haverão de perceber. Um semblante de razão, um desejo de oração; é das palavras em meu pulmão que respiro nestes dias. Sim, a sílaba é vento; e nele sopra um saber que orienta o mundo. Atento ao relento, vibrante ou sem fibra, recobro o objetivo de cada tecla premida. Somados à vida, nos traz os motivos pelos quais sorrimos e lutamos, choramos ou largamos, em cada verso sonido, em cada despedida. E sofremos pelo ar que se parte, como a espada que corta o céu zunindo e num segundo decepa a dor do guerreiro ferido. Não há o que ressentir. Para o nada também se vai a fumaça, seja num trago amargo da nicotina, ou no escape encardido do velho carro na esquina; ali se esvai sem pretensão de voltar. Prendo a respiração, sinto uma aflição e solto sem modéstia o carbono, desconhecendo ao certo se é politicamente correto. Mas não é desta inspiração que este texto transpira. Olho para cima, repito o processo e mais uma vez preencho a mente de símbolos e conceitos trazidos dos espaço. Um mosquito voa e ocupa o mesmo ambiente, sem noção, entretanto, de quão valioso o é. Ser não é apenas ter corpo. Ecoar não é apenas ser som. E dou-me conta de que podemos ser como o inseto perdido, que vive a voar sem perceber a riqueza do ar. Pois, por trás da composição, do enredo e da ciência, há uma soberba que devemos aspirar. Sutilmente, observe a mente meditar, a matéria sólida levitar e a consciência, simplesmente se libertar.

©Que todos os seres possam se beneficiar.

Caixa Ó DIGO!

Imagine que sua mente é uma caixa. Imagine que ela produz tudo o que você vê, fala e pensa. Imagine que ela não só cria, como registra tudo. E, portanto, tudo o que você vê, fala e pensa pode ser, ao mesmo tempo, algo que a caixa produz ou algo que já foi produzido em outro momento e está registrado. Mas, imagine; você não sabe a diferença entre o que é criado agora e o que está registrado. Imagine, apenas imagine. Quando for para pensar, direi para fazê-lo. Agora, imagine que um dia você levanta da cama e percebe que você nunca imaginou isso, que a sua mente é uma caixa que vê, fala e pensa tudo o que ela mesma produz e memoriza. Então, imagine que você se olha no espelho e vê sua imagem refletida. Anestesiado, ainda pelo sono, imagine que você se pergunta: de onde é produzido o que estou vendo? Imagine que você já fez isso, de olhar para o espelho, milhões de vezes, mas nunca imaginou essa possibilidade. Claro, você lava o rosto e sente a água gelada, escova os dentes e sente um frescor, penteia o cabelo e sente a massagem na sua cabeça. Três atos para se esquecer de imaginar tudo isso. Mas, milagrosamente, imagine que você não se esquece dessa ideia. Imagine que você anda pelas ruas olhando tudo ao seu redor e imaginando que sua mente é uma caixa e dentro dela tudo isso está sendo produzido ou reproduzido. Aqui, então, você vê uma pista. Ué, se a mente é uma caixa que pode produzir ou reproduzir, e se esta rua eu já vi outras vezes; portanto, isso tudo que vejo é uma reprodução! Mas ao mesmo tempo, se essas pessoas não eram as mesmas de ontem, então é uma produção?! Imagine, rápido, que você não precisa pensar a respeito, apenas imagine e continue andando. Então você chega num lugar conhecido. Pode ser sua escola ou trabalho. E você olha novamente para todos e imagina que tudo é produzido ou reproduzido na sua mente, que é uma caixa. Você diz bom dia para todos e imagina: puxa isso já está criado e estou apenas reproduzindo. Novamente imagina quantas vezes você já fez a mesma coisa. Sente até um pouco de tédio. Passa na sua frente uma pessoa que você tem uma atração. Na hora, você se imagina perguntando: será que essa atração e essa pessoa estão juntas na mesma caixa? Você não sabe a resposta, mas precisa continuar em frente sem nenhum raciocínio lógico, apenas imaginando sua mente como uma caixa. Imaginar assim, o tempo todo, deve estar deixando você cansado. Nenhuma análise, nenhuma resposta. Mas esse é o desafio, e você prossegue imaginando tudo como uma caixa. Humm, hora do almoço, que fome! Coloca a comida no prato, o talher na boca, sente o cheiro e o gosto maravilhoso daquele espaguetti ao molho sugo. E quando engole, imagina que ele está na sua mente, na sua caixa. Imagina que o sabor e o aroma são produzidos aí dentro. Decide, assim, que vai imaginar que é uma feijoada, depois um bife acebolado, um brócolis cozido, uma sopa, etc. Finaliza, imaginando uma torta doce de limão. Delícia, pode imaginar o que quiser, é uma caixa que produz e reproduz tudo! Passa o dia feliz, percebendo que pode imaginar o que quiser. Uma pessoa desagradável fala algo que você não gosta. Imagina reagir, mas decide imaginar algo como uma ópera, ou um grito de liberdade, ou uma língua diferente. Isso, você imagina russo. себе радость, lê-se “cibe radast”. Uhu, doidera. Agora, enquanto a pessoa continua falando, você imagina φανταστεί κανείς την ευτυχία, e escuta “fandasti cainisti nefstisia”. Nada se cria, tudo se copia do Google Translator – é grego, viu?! Brincando de imaginar, seu dia se torna mais divertido. Imagina sorvete ao invés da sopa no jantar. Imagina romance quando vê as tragédias no jornal da noite. Imagina felicidade quando lembra do mendigo que viu na rua e você nem quis imaginar como seria sua vida na mesma condição. Chega a hora de dormir. Se você imagina o céu, certamente faz sua oração imaginando uma entidade divina perto de você. Se não, geralmente imagina que divino será o café da manhã no dia seguinte. E na hora de fechar os olhos, imaginando que não precisa mais imaginar nada; recobra a atenção levantando rapidamente o dorso da cama! É óbvio, durante o sono, a sua mente que você imaginou como uma caixa, produz e reproduz tudo o que se pode imaginar enquanto você sonha?! Será isso uma maldição?! Quem fez isso comigo?! Chega, quero parar de imaginar! Como quem eu falo a respeito? Principalmente, quando imagino claramente que tudo o que vejo, falo ou penso é produzido ou reproduzido na minha mente, na minha caixa?! Calma, não vamos produzir ou reproduzir desespero, por favor! Alguma coisa, produzida ou reproduzida dentro dessa caixa deve ter uma auto-resposta (recuso-me a usar a nova regra ortográfica na minha caixa). Bom, preciso mexer cá dentro e encontrar em algum lugar a auto-solução. Mas tô cansado, será que durmo agora e vejo isso amanhã? Ou será que procuro aqui mesmo, com a cabeça deitada no travesseiro e imaginando tudo o que posso encontrar? Peraí, pelo volume de coisa que tem guardada aqui, posso demorar milênios até encontrar essa auto-resposta. Meu Deus, o que faço?! Deus? Tá aqui dentro ou tá fora? Paradoxo complexo… Jesus, me ilumine! Que vontade de pensar a respeito, ai, ai… ok, vamos continuar imaginando. Posso dormir, imaginando que tudo isso foi um sonho! Grande mentira, afinal estou imaginando bem agora. Puxa, o que faço?! Respire fundo dentro dessa caixa, a torácica, vale ressaltar. Vamos, então, fazer um esforço de pensar, mesmo que esteja imaginando, produzindo ou reproduzindo. Se a sua mente é uma caixa, toda caixa tem uma abertura. Bingo! E geralmente, tem um cadeado que a fecha. Ops, então tem como sair da caixa! O que preciso é apenas uma chave. Peraí, de novo… quando imaginei tudo o que vi, tudo o que senti, tudo o que provei, aquele russo falando, aquilo grego, aquelas línguas… shazam, tudo isso é um código!

©É por isso que chamamos nossa mente de caixola. Se você tem o código que abre a caixa, talvez possa nos contar, afinal seu código também está na minha caixa e vice-versa. Que todas as caixas possam se beneficiar!