Esvazie seu copo

Hoje não escrevo para ensinar. Nem para analisar de forma simpless, o que possa achar complexo. Não falo do porrão ou de qualquer vaso que contenha algo. Não expresso dor nem alegria. Não preencho a alma de nenhum tipo de substância. Não quero ver o mundo colorido e nem me interessa se é preto no branco. Não estou chateado, nem ranzinza. Não tenho esperança nem medo. Não divido a morte da vida. Hoje estou isento até do imposto de renda. Hoje, diferente do que ouvi outro dia, não preciso de um mundo; pois o mundo está contido dentro do vazio. Hoje, só espero que você – seja quem for e qual motivo tenha para estar aqui – saiba entender destas palavras. Pois se o mundo está contido num vazio; só por este vazio, ele pode estar contido. Esvazie seu copo, esvazie seu corpo e do mundo todo será preenchido.

©Possam todos os seres se beneficiar.

Cavaleiros da Esperança

Não há o que gere mais confusão do que a esperança. Talvez você se surpreenda. Quem sabe não queira nem ouvir. Mas ainda assim, é desta fé, assumida como uma promessa válida e permanente, que confiamos nossos sonhos, desejos, recusas e delírios. Cercamos nossos estados emocionais com muros gigantes, fortalecemos nossos terrenos com plantações de frutos mentais e depois de tanto vedarmos as fronteiras numa busca por um sentimento de segurança, nos vemos sós e infelizes. Construímos estes reinos de sofrimento com muito suor e determinação e, logo que está pronto, subimos na torre de pedra mais alta buscando no olhar ao longe encontrar quem ali conosco queira habitar. E inventamos lunetas para encontrarmos outros reinos, outras torres e outros seres que, murados e seguros, mas também solitários em seus reinados, nos clamam por atenção, amor e carinho. Brota assim o coração esperançoso, ansioso por abandonar o próprio construto para adentrar a solidão alheia. Esquecemos, porém, que são necessários tempo e esforço para a desconstrução das muralhas. E assim, subimos e descemos freneticamente as escadarias, por horas gritando à distância que estamos de partida, por outras sentados em devaneio nos calabouços da própria fortaleza erguida. Mas se o outro perde o vigor e some-nos da visão, mantemos a esperança em riste e voltamos nosso olhar para novos horizontes em busca de mais alguém que sabia como nos encontrar, preenchendo o espaço da terra que nos aprisiona. Ou muitas vezes achamos descobrir a solução e, ainda sem desvendar a própria libertação, brandimos orgulhosamente alguns planos mirabolantes como que fosse possível ao outro, ouvindo nossa magia escaldante, escapar da sua amarga armadura, alcançando-nos em nossas vidas vazias. Queremos ter ou ser cavaleiros da esperança. E esta ideologia confiante nos gera confusão porque nos torna dependentes. Entretanto, a independência não é sinal de arrogância; mas sim de humildade de começar a trabalhar com esmero na remoção de barreiras e obstáculos que nos impedem de andar livremente pelos campos. Nisto ainda deve restar uma esperança.

©Possam todos os seres se beneficiar.

Um Atmo Estável

Toda ciência termina quando tentamos projetar nossa vida para além desta. Para os céticos descrentes, como a dádiva termina em apenas uma rodada, é preciso valorizar o prazer ao máximo. Para os crentes idealistas, é preciso experimentar a dor por toda vida para fazer jus ao paraíso, ou então, experimentar o desgosto infernal do pecado capitalizado. Os Pagãos foram, ou são, ligados à natureza; e por isso, a experiência que transcende ao sensorial não possibilita ver além da folha verde que cai na mata. Nem a metafísica explica, através da filosofia fundamentada na investigação da realidade, nem da somatória de todos os saberes terrenos, de que é feita a matéria da vida para além desta. Sonho acordado nesta noite gelada, sentindo do frio um calor por apenas estar vivo por mais um instante. Da matéria pós-vida não tenho consciência; do sonho de estar em algures, pelo menos ainda consigo pulsar. Retirei, entretanto, em quase metade de uma vida, se assim for, o peso de entender pelo intelecto aquilo que é feito de sonífero. E mesmo assim, por vezes em devaneio, procuro olhar além da vida buscando respostas concretas para perguntas compostas de orvalhos na atmosfera. Pobre hábito racional. Um clima não se questiona e mesmo sendo sensitivo e com previsão incerta, pode ser percebido. Já um estado além do percebido talvez não possa nunca ser percebido pela mesma capacidade de percepção que só é capaz de sentir o que é pré-visto. Porém, um atmo* somente é preciso para fazer calar todo o lato campo conceitual da mente. E então, restar-nos tornar do atmo uma frequência contínua e duradoura, até tornar-se definitivo.

*Em português átimo, que significa 1. pequena parte, porção mínima; 2. momento, instante. Num átimo, rapidamente, num abrir e fechar de olhos.

©Possam todos os seres se beneficiar. 

O maior peso do mundo é a leveza

Quando escrevo para você, escrevo também para mim. Quando penso em mim, penso também em ti. Quando sei que as coisas estão difíceis ou quando vejo uma luz transbordar em felicidade, sei que a ti e a mim ocorrem no mesmo momento. Conectados por uma ligação além das palavras, sei que andamos paralelamente em busca da felicidade, que já cometemos diversos erros em prol da propriedade e realizamos milhares de atos ingênuos em detrimento de pouca moralidade. Mas o que seria apenas crueldade pode ter um princípio de outra verdade. Mentes conectadas, vivências correlacionadas, são certezas e probabilidades que vivem sempre integradas. Sim, digo isso sabendo da nossa “inoperabilidade” perante um mundo amarrado, sisudo e viciado; que não dá espaço à vã “feliz-idade”. Um mundo tão “i”, interligado, inteligente, informado; tão i-mundo. Onde só se discute o poder do intelecto. Um mundo onde as fronteiras a se desafiar são cheias de descobertas e barreiras filosóficas. Um universo rico em conceitos, semântica e análise. Meu mundo é irreverente, irônico e seletivo. Nele, não estão incluídos espécies de pouco conteúdo sem especulação. Pois nesse mundo, especular se confunde com espetacular. Um mundo onde tudo se compra porque tudo está a venda. Um mundo oriundo da incapacidade de criar mecanismos diferentes para os mesmos problemas. Cego ao ponto de não compreender, com sua gigantesca potência intelectual, que toda discriminação é um ato de aniquilamento futuro. Por que há pobreza? Por que há racismo? Por que há feminismo? Por que há sectarismo? Quem tenta responder sabe o peso da solução, porque há ilusão. O mundo busca hoje a sustentabilidade, ou a habilidade de sustentar. Mas sustentar o que? A pobreza? O racismo? O “achismo”? Ganhar habilidade no sustento apenas é insustentável para ativar as transformações inevitáveis que estão por vir. Mutações genéricas são pouco para a novas formações a surgir. Precisamos intervir, inferir e interferir no sistema revendo valores, pesos e medidas. Necessitamos de atitudes decididas. Fica claro porque a “.banda mais bonita da cidade” teve sua música “oração”, desejada ou odiada. Repito, toda discriminação é um ato de aniquilamento futuro. Espero não estar fazendo o mesmo, mas liberando aquilo que pesa na sua consciência. O maior peso do mundo é a leveza.

©Possam todos os seres se beneficiar.

Tsunamis Mentais

Iniciei este blog com a forte convicção de não escrever nada que não sentisse verdadeiro. Nada que fosse medíocre no sentido de crença. E por isso peço desculpas àqueles que solicitaram em vão novas publicações nos últimos meses. O fato é que senti-me completamente envolvido pela onda tsunâmica que assolou minha mente em deveres, atos e construções aspiracionais. Sim, enquanto o tsunami físico destrói milhares de estruturas de concreto e madeira, avassala vidas em instantes e invade o terreno seco; o tsunami mental é uma prolífera construção de imagens, sensações, anseios e desgostos numa turbulência incapaz de domar, pelo menos para mim. Surge de forma incerta, como o outro. Devasta a felicidade, como o outro. E creio vividamente que pode matar, dependendo da incapacidade de controle da alma envolta em suas ondas mentais. Da mesma forma que um corpo que rola batendo contra tudo em extrema violência no tsunami marítimo, sem conseguir dar as mãos para outras pessoas na catástrofe, a mente que se desestabiliza com a frequência alucinante de eventos sequênciais não consegue parar o movimento natural do fenômeno, seguindo só até que a turbulência termine. Na percepção emocional, muitos são os sentimentos que regem a experiência. Aflições repentinas, angústias inexplicáveis, violência imediatista, estado depressivo, euforia, desejos intensos, visão persecutória e vazio existencial são alguns deles. Na maioria das vezes sem razão aparente, mas que, por não conter um objeto causador tão nítido pode ser direcionado para qualquer um que funcione como descarga. E é assim que procede a onda mental tsunâmica. De ser em ser a energia é passada volupta e abruptamente, sem passar por transformações internas que sejam capazes de controlar seu avanço. Nosso despreparo em reconhecer as características da energia, da mesma forma que não sabemos lidar com a água quando ela escorre das nossas mãos, sãos as causas de toda dor e sofrimento. Reconheci esta verdade nos últimos dias e constatei que a carência de qualquer atividade espiritual pelos fatores que descrevi é sinal de que você está no meio de um oceano de incertezas, onde tudo pode acontecer. Dizer mais é abrir as comportas.

©Que você possa orar um minuto, ao menos, pelo Japão. Possam todos os seres se beneficiar.

 

A Sutil Profundidade da Transformação

Não há bichoca mais sortuda do que eu”, pensava o pequeno inseto embriagado de prazer no topo da árvore mais recheada da floresta. Não seria por menos, a macieira na qual vivia era das mais produtivas. Só nos arredores daquele arbusto era possível avistar mais de 7 maçãs vermelhas saborosíssimas. Fato que o seduzia a atravessar horas de galhos revoltos para adentrar mais um fruto proibido a cada quinzena. Além disso, como “um larva” experiente, sabia que uma vez perfurada, a peça manteria a essência adocicada por algum tempo, mas que a ação do vento e a oxidação natural provocariam uma nova caminhada que se repetia eternamente. E de furúnculo em furúnculo, de abscesso em abscesso, o cabeça-de-prego não notava que sua vida era um completo ciclo insustentável. Uma viciosa jornada sem fim, que sempre encerrava no começo de um novo sonho de perfurar a próxima casca. Só estas minhocas passavam pela sua mentalização unicelular e em todo o larval não havia sequer outro motivo de conversa ou transmissão comunicativa. Até que um dia, com tantas alterações climáticas que vivemos, aquele pequeno ser vivenciou uma transformação em sua vida. Era fim de tarde e o sol se punha na direção contrária da sua localização. O breu parcial era esperado, mas o que ocorreu foi algo sem precedentes. Um tornado surgiu do horizonte com tamanha violência que milhares de folhas e frutas foram arrancadas de suas copas. E junto com elas, milhares de insetos também tombaram suas vidas num estalo. Justamente o que não aconteceu com nosso inseto herói. Sem motivo aparente, a fruta onde era hospedeiro fez também um movimento íngreme durante a turbulência, mas permaneceu conectada por seu caule mais grosso do que o restante. Um caso clássico darwiniano, que seleciona naturalmente o destino das espécies e, neste caso, do balangandã que resistiu bravamente. Mas apesar do estardalhaço a quase ameba andante não se deu conta do ocorrido e permaneceu ali, como se nada houvesse acontecido, pelos dias habitualmente transcorridos. Na manhã que acordou faminta, lentamente recolheu suas patas e saiu sem uma mordida sequer na carnosa alaranjada, partindo pela penca em busca de outro alvo. Levantou a cabeça esverdeada e notou a diferença. Uma imagem tenebrosa de funículos esgarçados, trilhas desnudas e ausência total de tons quentes, que eram o sinal típico de comida no caminho. Sua visão entrou em colapso; “onde está ‘tudo’?”. Pense você, em se encontrar na mesma situação possuindo uma capacidade bizonha de reflexão. Como reagir? Como resolver o complexo problema que aflige qualquer ser que se depara com a ignorância e o instinto de preservação? Olhou para trás com desdém, por mais que o futuro fosse incerto não acreditava ser uma boa decisão voltar para o habitáculo, literalmente passado. Se por toda a vida havia sempre uma dentada por vir, não seria hoje que iria amargar a podridão. E assim, decidiu com valentia seguir em frente pela estrada mais dura e magicamente sombria que iria atravessar. Andava vagarosamente, empunhando do rosto um ar de orgulho… “a próxima maça está perto…”, tranquilizava-se inconscientemente sem notar que iniciava uma descida oblíqua em direção ao solo pelo tronco principal. Assim foi, ou melhor, foram precisos 2 dias de caminhada, com algumas paradas duvidosas no percurso, para que encontrasse definitivamente o terreno cheio de folhas secas. A verdade é que seu instinto o levou para a base do problema, lugar onde ainda era possível encontrar algum sulco entre as raízes. E foi ali mesmo que abocanhou uma raigota suculenta (naquela situação, qualquer coisa era suculenta), que apesar de não ser macia como as antigas refeições, ainda fez brotar um leve jarro de seiva doce. A sensação de vigor foi imediata e o bichinho ficou tão eufórico que começou a perfurar terra abaixo em busca do ouro. Acontece que não sei se este tipo de espectro respira soterrado, mas o nosso amiguinho se transformou numa destemida máquina de escavação microscópica digna dos cartoons. Como se sabe, quanto mais fundo de uma raizada, mais ramificada e cheia de nutrientes ela se torna e, portanto, mais complexa e ao mesmo tempo cheia de “vida” a devemos considerar. O certo é que lá se foi o larva, mergulhando em sua jornada, ravinhando até o ponto mais longínquo da superfície. Parou, olhou para trás, voltou-se novamente para a o centro da mãe terra e num ato de simpless fé seguiu em frente, até dissolver seu corpo em completa profusão. E retirando rápido… rrrr: de larva virou lava, e só.

©Fixar pra quê?! Eliminando a raiz do problema dissolve-se na imensidão da tranquilidade. Que todos os seres possam se beneficiar.

 

Pena Capital

O Carnaval é um excelente momento para viajar a praia. Sentar a beira-mar olhando o horizonte e, passando a mão na areia, deixar os grãos escorregarem aos dedos. E, neste ato involuntário, perceber a vida escapando de nós. A festa da carne não tem este poder, que pena.

©Num momento em que a energia da ignorância tomou conta da mente. Que todos os seres possam despertar.