Logo que vier…

Palavras não me cabem mais, mesmo que o silêncio não me ocupe. Quando a resposta é sabida, não há questão que se faça. Mas saiba, então, que nada sabe. Pois saber alguma coisa no tudo que não visto é sentir sabor naquilo que não se prova. O que tem gosto, passa. O que textura, desgasta. E o que tem cheiro, evapora… logo que o próximo clique vier…

©Possam todos os seres se beneficiar.

Até a Eternidade

Queremos o eterno, mas vivemos do efêmero. Levantamos da cama, mas não acordamos para a vida. Tomamos o café da manhã, mas não saboreamos o simples prazer de estar vivo. Atravessamos trânsitos homéricos, mas não vemos no instante uma odisséia. Trabalhamos para conquistas momentâneas e sofremos quando as perdemos, mas em nenhum momento entendemos que elas são só isso: presença. E se o que temos apenas é presença, como não sentir o amor brotar na aparência de seres que compartilham o mesmo espaço, no mesmo tempo? Eles passam por nós todos os segundos, em circunstâncias diversas. Dizem “bem-vindo, bom dia, olá, tudo bem, como vai… e nos absorvemos novamente no passageiro, e a verdade nos escapa num triz. De hora em hora, então, passamos a olhar o relógio, o futuro, e a certeza do fim se aproxima por baixo do orgulho cego de quem clama por eternidade sem notar que ela passa bem ali, na sua frente. O eterno é só a presença, constante, pura e bela, de um balé de formas, sons e sentimentos transitórios. E para viver até a eternidade, seja eterno e inseparável agora.

©Possam todos os seres se beneficiar.

Cavaleiros da Esperança

Não há o que gere mais confusão do que a esperança. Talvez você se surpreenda. Quem sabe não queira nem ouvir. Mas ainda assim, é desta fé, assumida como uma promessa válida e permanente, que confiamos nossos sonhos, desejos, recusas e delírios. Cercamos nossos estados emocionais com muros gigantes, fortalecemos nossos terrenos com plantações de frutos mentais e depois de tanto vedarmos as fronteiras numa busca por um sentimento de segurança, nos vemos sós e infelizes. Construímos estes reinos de sofrimento com muito suor e determinação e, logo que está pronto, subimos na torre de pedra mais alta buscando no olhar ao longe encontrar quem ali conosco queira habitar. E inventamos lunetas para encontrarmos outros reinos, outras torres e outros seres que, murados e seguros, mas também solitários em seus reinados, nos clamam por atenção, amor e carinho. Brota assim o coração esperançoso, ansioso por abandonar o próprio construto para adentrar a solidão alheia. Esquecemos, porém, que são necessários tempo e esforço para a desconstrução das muralhas. E assim, subimos e descemos freneticamente as escadarias, por horas gritando à distância que estamos de partida, por outras sentados em devaneio nos calabouços da própria fortaleza erguida. Mas se o outro perde o vigor e some-nos da visão, mantemos a esperança em riste e voltamos nosso olhar para novos horizontes em busca de mais alguém que sabia como nos encontrar, preenchendo o espaço da terra que nos aprisiona. Ou muitas vezes achamos descobrir a solução e, ainda sem desvendar a própria libertação, brandimos orgulhosamente alguns planos mirabolantes como que fosse possível ao outro, ouvindo nossa magia escaldante, escapar da sua amarga armadura, alcançando-nos em nossas vidas vazias. Queremos ter ou ser cavaleiros da esperança. E esta ideologia confiante nos gera confusão porque nos torna dependentes. Entretanto, a independência não é sinal de arrogância; mas sim de humildade de começar a trabalhar com esmero na remoção de barreiras e obstáculos que nos impedem de andar livremente pelos campos. Nisto ainda deve restar uma esperança.

©Possam todos os seres se beneficiar.

Dúvidas são Dádivas

Não tenho dúvidas que plantamos muito carma juntos

Não tenho dúvidas que unimos as mãos no ventre da vida

Não tenho dúvidas que semeamos amor ao nosso redor

Tenho dúvidas, porque o que sinto não é apenas o que vejo

E nossas dúvidas são mais do que podemos agarrar…

Mas são dúvidas, meu amor

Dávidas no meio de um belo sonho

Onde acho que não vou acordar

Mas o que pode nos ocorrer, se da dúvida vamos duvidar?

O que vamos juntos fazer, se a dúvida pudermos provar?

Se nossas dúvidas são mais do que podemos agarrar…

Mas são dúvidas, meu amor

Dádivas no meio de um belo sonho

Onde acho que não vou acordar

Dúvidas que nos bastam duvidar…

Dádivas que nos bastam provar…

©Escrevendo, ouvi algo no estilo REM. Gostaria muito que este texto virasse música, caso alguém se habilite, entre em contato. Que todos os seres possam se beneficiar!

Enquanto ainda há lucidez


O texto era para começar assim… “enquanto o mundo está senil, mostre que ainda há lucidez. Enquanto explode o inglês, seja agente da sensatez. Somos povo criança, aprendemos como se dança, nunca igual aos britânicos ou à França. Passamos períodos de descrença, economia baixa e desavença, mas nunca perdemos a esperança. Isso é de nascença. É tolo não sentir essa presença. Pueril não ter essência.” Mas mudei todo o sentido, do começo até o desfecho. Pois enquanto ainda há lucidez, use a sensatez para dançar uma valsa. Escute a melodia, fuja da fumaça. Brinque de pega e traça. É só estar em estado de graça. Eita coisa boa, fazer rima de coisa tola. Sentir-se um Zé em Pessoa. Alberto, Caeiro, Ricardo, Reis, Álvaro, Campos; qualquer sobrenome ecoa. E enquanto o mundo está senil, viva você a mil, cante dentro de um funil, tinja tudo de anil. Meu Brasil varonil. É de seu semblante que vejo brotar, a chama boa que incendeia, o carinho que clareia, o desejo que tu me queiras. Enquanto explode o inglês, que venha o butanês. Tiremos a timidez, acabemos com a embriaguez. Chegou a nossa vez!

©Imagem: recorte de “Retrato de Jan Švankmajer” em lápis de cor sobre papel. Que todos os seres possam se beneficiar.

Um Atmo Estável

Toda ciência termina quando tentamos projetar nossa vida para além desta. Para os céticos descrentes, como a dádiva termina em apenas uma rodada, é preciso valorizar o prazer ao máximo. Para os crentes idealistas, é preciso experimentar a dor por toda vida para fazer jus ao paraíso, ou então, experimentar o desgosto infernal do pecado capitalizado. Os Pagãos foram, ou são, ligados à natureza; e por isso, a experiência que transcende ao sensorial não possibilita ver além da folha verde que cai na mata. Nem a metafísica explica, através da filosofia fundamentada na investigação da realidade, nem da somatória de todos os saberes terrenos, de que é feita a matéria da vida para além desta. Sonho acordado nesta noite gelada, sentindo do frio um calor por apenas estar vivo por mais um instante. Da matéria pós-vida não tenho consciência; do sonho de estar em algures, pelo menos ainda consigo pulsar. Retirei, entretanto, em quase metade de uma vida, se assim for, o peso de entender pelo intelecto aquilo que é feito de sonífero. E mesmo assim, por vezes em devaneio, procuro olhar além da vida buscando respostas concretas para perguntas compostas de orvalhos na atmosfera. Pobre hábito racional. Um clima não se questiona e mesmo sendo sensitivo e com previsão incerta, pode ser percebido. Já um estado além do percebido talvez não possa nunca ser percebido pela mesma capacidade de percepção que só é capaz de sentir o que é pré-visto. Porém, um atmo* somente é preciso para fazer calar todo o lato campo conceitual da mente. E então, restar-nos tornar do atmo uma frequência contínua e duradoura, até tornar-se definitivo.

*Em português átimo, que significa 1. pequena parte, porção mínima; 2. momento, instante. Num átimo, rapidamente, num abrir e fechar de olhos.

©Possam todos os seres se beneficiar. 

O maior peso do mundo é a leveza

Quando escrevo para você, escrevo também para mim. Quando penso em mim, penso também em ti. Quando sei que as coisas estão difíceis ou quando vejo uma luz transbordar em felicidade, sei que a ti e a mim ocorrem no mesmo momento. Conectados por uma ligação além das palavras, sei que andamos paralelamente em busca da felicidade, que já cometemos diversos erros em prol da propriedade e realizamos milhares de atos ingênuos em detrimento de pouca moralidade. Mas o que seria apenas crueldade pode ter um princípio de outra verdade. Mentes conectadas, vivências correlacionadas, são certezas e probabilidades que vivem sempre integradas. Sim, digo isso sabendo da nossa “inoperabilidade” perante um mundo amarrado, sisudo e viciado; que não dá espaço à vã “feliz-idade”. Um mundo tão “i”, interligado, inteligente, informado; tão i-mundo. Onde só se discute o poder do intelecto. Um mundo onde as fronteiras a se desafiar são cheias de descobertas e barreiras filosóficas. Um universo rico em conceitos, semântica e análise. Meu mundo é irreverente, irônico e seletivo. Nele, não estão incluídos espécies de pouco conteúdo sem especulação. Pois nesse mundo, especular se confunde com espetacular. Um mundo onde tudo se compra porque tudo está a venda. Um mundo oriundo da incapacidade de criar mecanismos diferentes para os mesmos problemas. Cego ao ponto de não compreender, com sua gigantesca potência intelectual, que toda discriminação é um ato de aniquilamento futuro. Por que há pobreza? Por que há racismo? Por que há feminismo? Por que há sectarismo? Quem tenta responder sabe o peso da solução, porque há ilusão. O mundo busca hoje a sustentabilidade, ou a habilidade de sustentar. Mas sustentar o que? A pobreza? O racismo? O “achismo”? Ganhar habilidade no sustento apenas é insustentável para ativar as transformações inevitáveis que estão por vir. Mutações genéricas são pouco para a novas formações a surgir. Precisamos intervir, inferir e interferir no sistema revendo valores, pesos e medidas. Necessitamos de atitudes decididas. Fica claro porque a “.banda mais bonita da cidade” teve sua música “oração”, desejada ou odiada. Repito, toda discriminação é um ato de aniquilamento futuro. Espero não estar fazendo o mesmo, mas liberando aquilo que pesa na sua consciência. O maior peso do mundo é a leveza.

©Possam todos os seres se beneficiar.