Algo está no ar

Há dias, que escrever é mera parte de mim. E por instantes sou todo palavras, nexos e sintaxe. Não que isso tenha sentido na vida, pois ela é muito mais do que posso dizer. Mas quando digo e não me nego a sentir, vejo pelas letras aquilo que nunca os olhos haverão de perceber. Um semblante de razão, um desejo de oração; é das palavras em meu pulmão que respiro nestes dias. Sim, a sílaba é vento; e nele sopra um saber que orienta o mundo. Atento ao relento, vibrante ou sem fibra, recobro o objetivo de cada tecla premida. Somados à vida, nos traz os motivos pelos quais sorrimos e lutamos, choramos ou largamos, em cada verso sonido, em cada despedida. E sofremos pelo ar que se parte, como a espada que corta o céu zunindo e num segundo decepa a dor do guerreiro ferido. Não há o que ressentir. Para o nada também se vai a fumaça, seja num trago amargo da nicotina, ou no escape encardido do velho carro na esquina; ali se esvai sem pretensão de voltar. Prendo a respiração, sinto uma aflição e solto sem modéstia o carbono, desconhecendo ao certo se é politicamente correto. Mas não é desta inspiração que este texto transpira. Olho para cima, repito o processo e mais uma vez preencho a mente de símbolos e conceitos trazidos dos espaço. Um mosquito voa e ocupa o mesmo ambiente, sem noção, entretanto, de quão valioso o é. Ser não é apenas ter corpo. Ecoar não é apenas ser som. E dou-me conta de que podemos ser como o inseto perdido, que vive a voar sem perceber a riqueza do ar. Pois, por trás da composição, do enredo e da ciência, há uma soberba que devemos aspirar. Sutilmente, observe a mente meditar, a matéria sólida levitar e a consciência, simplesmente se libertar.

©Que todos os seres possam se beneficiar.

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Insólito Dia

Era um dia qualquer, desses que você nem percebe que está passando. Na sala de estar de um belo sobrado paulistano, amigos batiam um papo jocoso, depois de um excepcional almoço regado a vinho tinto de boa cepa. O assunto seguia na banalidade, talvez pela informalidade costumeira com que se encontravam nos finais de semana. Não era sempre assim, vez em outra surgia um tema filosófico na “parada” e logo todos se ajeitavam nas cadeiras, transpirando ares de intelectualidade. E foi num desses momentos que nasceu inesperadamente a reflexão do dia. Augusto, o bon vivant da turma, exclamou despretensiosamente uma frase usual, depois de espreguiçar os braços corplulentos e bocejar. “Puxa, mais um dia, gente… mais um dia…”. É interessante percebermos como as discussões eclodem de forma esporádica. Alguém levanta o pavio e logo tem outro que acende a primeira chama. E se o fogo pega, aí sim, todo mundo esquenta o assunto “labaredeando” idéias e opiniões inflamadas. “Taí, gostei dessa Augusto… mais um dia… e eu pergunto, o que é um Dia?”. “Heheh, muito boa… ou melhor, muito bom… aliás, bom dia! Porque essa foi pra acordar”. “Bom, (risos)… dia é um tempo que trasncorre, em alguma parte da terra, do momento em que o sol nasce até o instante que se deita, tendo uma duração aproximada de 12 horas”, exclamou o professor de geografia que sempre tinha dados precisos para as dúvidas do grupo. Era usual ter um “combatente” direto, o Astrólogo, que não demorou nem um milésimo de segundo para questionar… “Opa, opa… dia também é o tempo de vida, um decurso da existência, na qual somos influenciados por toda a energia cósmica. Portanto, dia também pode ser considerado um ato de realização… claro que tem uma contagem, porque essa ação dos astros varia a toda hora… mas, o fato é não podemos só pensar no movimento de rotação da Terra”. “Sim senhores…”, emendou o matemático de plantão, “…vocês estão chegando na questão. Reparem; seja na ciência, seja no misticismo, sempre haverá um cálculo possível de ser aplicado. Por quê?! Porque dia é igual a tempo, simples!”. “Não concordo, desculpe, você pode passar um dia inteiro no escritório; trabalhar, trabalhar e trabalhar, e só perder tempo. E aí, o cálculo vai por água abaixo. Dia é algo intagível, precisa ser vivido; experimentado para entrar na conta do tempo. Mas não é todo mundo que faz isso, né?”, aflorou o psicoterapeuta da casa. Havia tanto calor na conversa que eles nem se deram conta de um observador silencioso, bem ao alto. Um canarinho tinha se agarrado ao parapeito da janela principal e acompanhava com a cabeça ágil cada som disparado no ambiente. Entretanto, bastou que ninguém mais proferisse uma palavra para ele levantar vôo soltando um pio, chamando a atenção de Augusto… “Olha lá, gente, ficamos tão presos em descobrir o significado do dia, que ele se foi…”. Augusto até tentou apontar o dedo para o pássaro amarelo dourado, mas nos ouvidos de todos ficou a nítida sensação de que era o dia que fugia das mãos.

©Ao tentar definir, perdemos a definição mais precisa. O sentido de tudo isso não é acumular conhecimento. Não é provar o sabor da concordância. Não é colocar na ponta do lápis a soma do que se tem. Pessoas, coisas, situações, alegrias, tristezas e qualquer pensamento que você possa ter, vai, do mesmo jeito que vem. Quando não estamos atentos, não percebemos a sua existência, como o passarinho que pousou misteriosamente. Mas quando a mente está alerta, podemos apreciar a beleza do movimento, lento e sereno, da existência que nos rodeia. Se um dia passa sem essa percepção ele é em vão. Se ele acontece, você está feliz, agora, em todos os dias. Que todos os seres possam se beneficiar.

A verdadeira liberdade

Nas últimas semanas tirei férias do corre-corre turbulento da vida diária. Uma maneira convencional de conquistar a liberdade, nem que seja apenas por poucos dias. O destino foi inspirador: os Estados Unidos da América. Não que eu seja apaixonado pelo império global, mas poder conhecer mais desta cultura que se autoproclama “terra da liberdade” é sempre uma viagem libertadora, se pudermos comparar com a nossa visão. Por isso, resolvi escrever para você sobre diversos insights e pensamentos que “construí” durante minha estada. Não sei quantas serão as matérias, mas enquanto tiver assuntos que sejam ricos de conteúdo e de capacidade de reflexão, fique tranqüilo que saberá na íntegra. Enfim, o primeiro tema é justamente a liberdade, simbolicamente representado pela famosa estátua americana que no último domingo fez 121 anos. Descobri por lá que esse monumento foi um presente da França para os Estados Unidos em homenagem ao centenário da conquista da independência americana, em 4 de julho de 1776 (se conseguir, veja na foto a inscrição JULY IV MDCCLXXVI cravada no livro em sua mão esquerda). Oferecida pelo imperador Napoleão III, sobrinho do notório Napoleão Bonaparte, foi inaugurada em 28 de outubro de 1886 com uma grande festa popular. Em todo o mundo, a Estátua da Liberdade é reconhecida como o maior símbolo dos Estados Unidos e, devido sua história, representa a liberdade contra a opressão das massas. Tudo isso é muito bonito e emocionante quando se ouve, com fone de ouvido, o guia de áudio que custa 5 dólares e exibe falas empolgantes do momento histórico. Mas ao olhar para o modelo de vida do americano médio é fácil notar algo que não combina com esse discurso. Apesar da liberdade americana estar calcada em pilares que valorizam o pensar e o agir com livre arbítrio – realmente a gente encontra de tudo o que se pode imaginar nos EUA, desde produtos a estilos diferentes –, as entranhas da nação estão presas a um carma onde a felicidade é um estado de espírito consumista que rouba a liberdade de simplesmente viver, sem o compromisso de ser ou ter algo valioso. É impressionante sentir a força do capital como motor social influenciando todos, de residentes a turistas, a comprar tudo, de mercadorias a sonhos. Histórias não faltam para contar. Por exemplo, conheci uma brasileira de classe social pobre que virou dona de empresa em apenas 5 anos. Ela anda cheia de ouro pra cima e pra baixo e tem paixão pelo estilo de vida yankee. Mas também há muitos outros que continuam lutando atrás do balcão depois de anos, acorrentados à velha ilusão de conquistar a América. O comum, entretanto, é vermos as lojas lotadas de gente e centenas de pessoas andando com sacolinhas pelas principais avenidas de Manhattan, como se a vida se resumisse a isso: trabalhar e consumir. Não posso negar, entrei na onda também, nem que fosse apenas para sentir com mais intensidade aquela vibração; mas sempre com um filtro que era ativado a noite, na hora do banho quente no hotel. A contrapartida era refletir sobre a natureza do nosso povo, da pobreza à simplicidade. O fato de não termos bens e riquezas materiais com essa facilidade pode ser um sinal de liberdade. Obviamente, não estou querendo minimizar a injustiça social que precisa de solução. Mas a verdade é que o brasileiro substitui a carência material pela alegria, pelo o sorriso no rosto e pelo contato afetivo com as outras pessoas. E esse modelo, para quem valoriza as profundezas da alma, é o que melhor representa o verdadeiro significado de ser livre. Talvez seja por isso que o nosso principal símbolo para o mundo seja o Cristo Redentor. Ele sim, simboliza a liberdade plena e perene de acolher todos de braços abertos. 

©Texto publicado no jornal Grande SP em outubro de 2007.

◊A estátua da Liberdade completou 121 anos no dia 28 de outubro de 2007.