Medo do Silêncio

Com medo do silêncio, os homens inventaram veículos de comunicação. E sem saber pilotar isso, os utilizamos, sem notarmos que há silêncio em tudo o que inventamos. Já escrevi, mas repito: escrevemos na esperança de sermos lidos… e dizemos no sonho de sermos ouvidos… e olhamos no desejo de sermos percebidos. Temos medo de tudo que ecoa… eita coisa tola. Ressoante, enfrentamos a dura batalha da vida entre repercussões e cessões… e não renunciamos uma novela, mas afastamos a novena, sem pestanejar. Medo estúpido, credo cupido. Tudo que é vulgar parece perdurar. Ledo engano, de cedo enfadonho. Como é medonho titubear.

©Se causar benefício, que todos os seres possam se beneficiar.

A Chuva e a Chave

raios

A porta se abre e do lado de fora ouvimos um barulho forte de água pingando do céu. Nosso sentido se aguça, presentindo uma situação que nos é comum, mas sempre vivida com certo incômodo. Os olhos buscam o abrigo mais perto, enquanto trovoadas iluminam nosso rosto cabisbaixo. Respiramos profundamente e saímos em disparada, como se um raio cruel nos atacasse de forma implacável mesmo que a razão nos avise: é apenas uma chuva de verão. Por trás da cena corriqueira há um hábito, uma memória de preservação que deve nos acompanhar desde os primórdios. E este ciclo de sensações que sobrepõe nosso sentido de realidade, aqui e agora, é um dos principais temas da trilogia Matrix, que em 2009 completará 10 anos (veja a cena final do filme). Se você está na casa dos 30, como eu, foi abduzido pela complexa filosofia do filme na juventude. E talvez, também como eu, tenha confundido quais são as chaves, e não a pílula, que abrem a verdade. A idéia aqui não é fazer apologia da obra. Mas há um personagem da história que me agrada muito, ainda hoje. É o Chaveiro. No roteiro, um programa (caracterizado por um personagem japonês) detentor de um código fonte capaz de abrir as portas do Mainframe para o herói Neo. Na vida real, ele é o sábio que detém as chaves para a compreensão do absoluto. Mas aqui vai uma ressalva para o próprio autor deste artigo. Devemos ter cuidado com o que dizemos, com o que pensamos, com o que fazemos. Pois, ao mesmo tempo que escrevo estas linhas, o tempo passa e com ele há um esgotamento das chances de acessar tais verdades. Além disso, há também um perigo inerente ao discurso. Se “rodarmos um programa” incrédulo, tão viciado como nosso medo persecutório em relação a chuva – puro instinto de preservação -, ativamos na mente formas de pensar já conhecidas, como desejo ou aversão, que nos reduzem a capacidade de atravessar a porta secreta da existência. A linguagem é uma forma de programação. E assim, cometemos a mesma “falha” do roteiro de Matrix; tomamos uma decisão que representa o apego – mais que uma relação entre humanos, uma força que nos leva a manter as mesmas atitudes – e perdermos o caminho que leva a clareza mental. Como um céu que fecha de repente, apagando o sol do meio-dia. A boa notícia é que existem chaveiros espirituais que possuem o acesso ao sol, mesmo com o tempo encoberto.

®Publicado na última edição do jornal O Local. Que todos os seres possam se beneficiar.

Economia de Senso

Dólar sobe, dólar desce. Bolsa sobe, bolsa desaba. Juros sobem, crise aparece. A economia é tão cruel quanto o terrorismo. Age de forma especulativa. Nunca sabemos sua próxima vítima, da mesma forma que um carro-bomba estoura em uma avenida cheia de pessoas inocentes. Não é a toa que a mídia mundial se utiliza destes dois temas para “seduzir” seus leitores. Ávidos por saber cada variação percentual com o mesmo temor que ouvimos sobre homens-bomba no oriente médio, somos cobaias fáceis de uma mídia cada vez menos criativa e positiva. Paz e estabilidade não se vende tão bem, a não ser na época do Natal, quando o mundo dá um tempo na necessidade de urgir o medo. E medo do quê? Simpless, de perder e de morrer. Entretanto, o que nós, medrosos pela ignorância, não pensamos é que temos medo de uma verdade que não tarda. Em algum momento na vida iremos perder algo que gostamos ou amamos. E a morte não é uma possibilidade, mas um fato. Negar esta realidade é viver com medo do inevitável. E se você não pode evitar, de que adianta temer? Mas esta economia de senso pode ter um fim. Não só na mídia, que se utiliza da fraqueza humana com a mesma irresponsabilidade que contestamos a natureza da vida, mas dentro da sua caixola. Olhe já para a sua realidade. Contemple o quanto é valioso apenas estar vivo agora. Admire cada visão, cada som e cada sentimento. Por fim, não economize nem um centésimo do que você tem de maior valor: a felicidade. Pronto, lá se foi a crise.

®Cansado de ouvir as mazelas do mundo, com a certeza de que o medo não é a solução.