Caixa Ó DIGO!

Imagine que sua mente é uma caixa. Imagine que ela produz tudo o que você vê, fala e pensa. Imagine que ela não só cria, como registra tudo. E, portanto, tudo o que você vê, fala e pensa pode ser, ao mesmo tempo, algo que a caixa produz ou algo que já foi produzido em outro momento e está registrado. Mas, imagine; você não sabe a diferença entre o que é criado agora e o que está registrado. Imagine, apenas imagine. Quando for para pensar, direi para fazê-lo. Agora, imagine que um dia você levanta da cama e percebe que você nunca imaginou isso, que a sua mente é uma caixa que vê, fala e pensa tudo o que ela mesma produz e memoriza. Então, imagine que você se olha no espelho e vê sua imagem refletida. Anestesiado, ainda pelo sono, imagine que você se pergunta: de onde é produzido o que estou vendo? Imagine que você já fez isso, de olhar para o espelho, milhões de vezes, mas nunca imaginou essa possibilidade. Claro, você lava o rosto e sente a água gelada, escova os dentes e sente um frescor, penteia o cabelo e sente a massagem na sua cabeça. Três atos para se esquecer de imaginar tudo isso. Mas, milagrosamente, imagine que você não se esquece dessa ideia. Imagine que você anda pelas ruas olhando tudo ao seu redor e imaginando que sua mente é uma caixa e dentro dela tudo isso está sendo produzido ou reproduzido. Aqui, então, você vê uma pista. Ué, se a mente é uma caixa que pode produzir ou reproduzir, e se esta rua eu já vi outras vezes; portanto, isso tudo que vejo é uma reprodução! Mas ao mesmo tempo, se essas pessoas não eram as mesmas de ontem, então é uma produção?! Imagine, rápido, que você não precisa pensar a respeito, apenas imagine e continue andando. Então você chega num lugar conhecido. Pode ser sua escola ou trabalho. E você olha novamente para todos e imagina que tudo é produzido ou reproduzido na sua mente, que é uma caixa. Você diz bom dia para todos e imagina: puxa isso já está criado e estou apenas reproduzindo. Novamente imagina quantas vezes você já fez a mesma coisa. Sente até um pouco de tédio. Passa na sua frente uma pessoa que você tem uma atração. Na hora, você se imagina perguntando: será que essa atração e essa pessoa estão juntas na mesma caixa? Você não sabe a resposta, mas precisa continuar em frente sem nenhum raciocínio lógico, apenas imaginando sua mente como uma caixa. Imaginar assim, o tempo todo, deve estar deixando você cansado. Nenhuma análise, nenhuma resposta. Mas esse é o desafio, e você prossegue imaginando tudo como uma caixa. Humm, hora do almoço, que fome! Coloca a comida no prato, o talher na boca, sente o cheiro e o gosto maravilhoso daquele espaguetti ao molho sugo. E quando engole, imagina que ele está na sua mente, na sua caixa. Imagina que o sabor e o aroma são produzidos aí dentro. Decide, assim, que vai imaginar que é uma feijoada, depois um bife acebolado, um brócolis cozido, uma sopa, etc. Finaliza, imaginando uma torta doce de limão. Delícia, pode imaginar o que quiser, é uma caixa que produz e reproduz tudo! Passa o dia feliz, percebendo que pode imaginar o que quiser. Uma pessoa desagradável fala algo que você não gosta. Imagina reagir, mas decide imaginar algo como uma ópera, ou um grito de liberdade, ou uma língua diferente. Isso, você imagina russo. себе радость, lê-se “cibe radast”. Uhu, doidera. Agora, enquanto a pessoa continua falando, você imagina φανταστεί κανείς την ευτυχία, e escuta “fandasti cainisti nefstisia”. Nada se cria, tudo se copia do Google Translator – é grego, viu?! Brincando de imaginar, seu dia se torna mais divertido. Imagina sorvete ao invés da sopa no jantar. Imagina romance quando vê as tragédias no jornal da noite. Imagina felicidade quando lembra do mendigo que viu na rua e você nem quis imaginar como seria sua vida na mesma condição. Chega a hora de dormir. Se você imagina o céu, certamente faz sua oração imaginando uma entidade divina perto de você. Se não, geralmente imagina que divino será o café da manhã no dia seguinte. E na hora de fechar os olhos, imaginando que não precisa mais imaginar nada; recobra a atenção levantando rapidamente o dorso da cama! É óbvio, durante o sono, a sua mente que você imaginou como uma caixa, produz e reproduz tudo o que se pode imaginar enquanto você sonha?! Será isso uma maldição?! Quem fez isso comigo?! Chega, quero parar de imaginar! Como quem eu falo a respeito? Principalmente, quando imagino claramente que tudo o que vejo, falo ou penso é produzido ou reproduzido na minha mente, na minha caixa?! Calma, não vamos produzir ou reproduzir desespero, por favor! Alguma coisa, produzida ou reproduzida dentro dessa caixa deve ter uma auto-resposta (recuso-me a usar a nova regra ortográfica na minha caixa). Bom, preciso mexer cá dentro e encontrar em algum lugar a auto-solução. Mas tô cansado, será que durmo agora e vejo isso amanhã? Ou será que procuro aqui mesmo, com a cabeça deitada no travesseiro e imaginando tudo o que posso encontrar? Peraí, pelo volume de coisa que tem guardada aqui, posso demorar milênios até encontrar essa auto-resposta. Meu Deus, o que faço?! Deus? Tá aqui dentro ou tá fora? Paradoxo complexo… Jesus, me ilumine! Que vontade de pensar a respeito, ai, ai… ok, vamos continuar imaginando. Posso dormir, imaginando que tudo isso foi um sonho! Grande mentira, afinal estou imaginando bem agora. Puxa, o que faço?! Respire fundo dentro dessa caixa, a torácica, vale ressaltar. Vamos, então, fazer um esforço de pensar, mesmo que esteja imaginando, produzindo ou reproduzindo. Se a sua mente é uma caixa, toda caixa tem uma abertura. Bingo! E geralmente, tem um cadeado que a fecha. Ops, então tem como sair da caixa! O que preciso é apenas uma chave. Peraí, de novo… quando imaginei tudo o que vi, tudo o que senti, tudo o que provei, aquele russo falando, aquilo grego, aquelas línguas… shazam, tudo isso é um código!

©É por isso que chamamos nossa mente de caixola. Se você tem o código que abre a caixa, talvez possa nos contar, afinal seu código também está na minha caixa e vice-versa. Que todas as caixas possam se beneficiar!

Conto da Despedida

Obscurecido pela luminosidade que era projetada em seu rosto, o sujeito, pálido, não conseguia ver nada além de quadros coloridos com conteúdo que ele mesmo havia criado. Cenas da infância lhe vieram ao pensamento quando viu, num tom de cenoura ralada, a estampa dos seguintes dizeres: Seus Registros. Em sequência quase cronológica, pelo menos era isso que lhe parecia, cada passo seu era mostrado com extrema precisão que só “Ele” era capaz de saber. Os momentos de lazer, os árduos trabalhos focados no crescimento do business e até os desejos libertinosos eram expostos sem reserva, nem fôlego. Enquanto o show visual acontecia, uma voz masculina, forte, séria e marcante, pontuava os assuntos com moralidade e extremo vigor: “Você foi displicente em X% do seu tempo, deixou de apoiar os companheiros em situações cruciais e acessou sites pornográficos em demasia…”. O timbre chegava a audição provocando um desconforto indescritível. Como era angustiante rever o passado assim, tão cruelmente. A velocidade da informação também o anestesiava. Flashes sequênciais em alta velocidade não davam respiro. E a pergunta pelo motivo de tal exposição não acalmava seu espírito nebuloso. Era mortificante! Não se sentia nada obsoleto, pelo contrário, tinha muito ainda para fazer. Mas parecia que estava sendo simplesmente descartado sem pudor, sem que a sua história tivesse valor. Com certeza seria lembrado pelos amigos como um cara de bom feitio, honesto e humoristicamente interessante. Afinal, tinha deixado boas lembranças, seja nas conversas do meio-de-tarde, seja no ardente e inesquecível romance que tinha com a mulher que mais mexeu com sua paixão. “Ah, como foram gostosos aqueles olhares cruzados. Que tesão era sair com ela a noite, depois de um dia estressante, para transar frenéticamente até a madrugada… e depois bebericar juntos um café da manhã no Hotel de costume”. Ela, que permaneceria ainda nesse universo, certamente não esqueceria isso, jamais! Mas não era somente o prazer que era deixado para trás. Milhares de idéias marcadas por ideais de confiança e determinação estavam sendo abandonadas, quem sabe esquecidas para sempre. E o sonho de oferecer ao mundo sua maior contribuição – implementar uma ação social para acabar com a fome mundial – apodrecia como bilhares de sementes que são abandonados em celeiros ao redor do planeta. Que tristeza, anos de esforço terminando assim, sem mais nem menos, de forma súbita. O saldo final, entretanto, não tinha um resultado nítido, nem objetivo. Claro, o que é resultante de tudo que fazemos se não um grande vazio? Existir e não-existir fazem parte do mesmo prato que servimos e provamos. E uma despedida é somente uma transição de grão, de um lugar para outro, experimentado de tempos em tempos. Uma lágrima escorreu pelo seu coração. A projeção se encerrou. Uma luz forte o iluminou. E só restou uma atitude, agradecer tudo o que aprendeu naquela empresa multinacional.

©Corporações, sonhos e despedidas confusas são temas de um dos roteiros mais brilhantes que já vi. “Abre los Ojos”, de Alejandro Amenábar e Mateo Gil, ganhou as telas em 97, e posteriormente viria a se tornar o conhecido filme “Vanilla Sky” (2001). Todas as despedidas são dolorosas, porque são envenenadas pelo desejo. Mas todas podem ser vividas com graça se você aprender mais sobre a impermanência. Que todos os seres possam se beneficiar.

Registros

Escrevo porque gosto de sentir o sabor das ilusões retratados de forma nítida através das palavras. Escrevo porque sinto prazer em dizer tudo o que penso silenciosamente. Escrevo, porque um dia serei lido. Mesmo que esse dia não seja hoje. Porque tudo que fica registrado uma vez no universo não tem data para acabar. Extintos foram os dinossauros, não suas marcas, nem sua história.

©Quando acessamos a memória podemos chegar ao princípio de tudo. Lá encontramos a base da criação e todos os registros que formaram o que existe. E mesmo assim, não podemos dizer que temos o passado nem o futuro. Só os momentos que registramos agora e que se sobrepõem como pedras, uma em cima da outra. Tome nota!

Para quem quiser ouvir

Nos tornamos o tempo que passamos. Se ordinário, ordinário ficamos. Se medíocre, medíocre pensamos. Uma espécie de calabouço construímos e nos aprisionamos a um padrão de estupidez com grilhões que só se rompem com paciência e atenção. A questão não é força de vontade, mas garras de hábitos que são formadas sem intenção qualquer. Apenas a atração pelo conhecido, pela repetição sem motivo é o que surge, do nada. Vencê-la, após vidas de sofrimento e ignorância é uma tarefa árdua que resulta em uma serenidade límpida que não responde nenhuma questão. Mas afaga o desejo insano de dar sentido ao inexplicável. Realizar isto é calar perante a fala inexpressiva. De um território que não é inexplorável.

®Não há registro para o que se cria sem querer algo em troca. Esse texto é “inregistrável”.