Dúvidas são Dádivas

Não tenho dúvidas que plantamos muito carma juntos

Não tenho dúvidas que unimos as mãos no ventre da vida

Não tenho dúvidas que semeamos amor ao nosso redor

Tenho dúvidas, porque o que sinto não é apenas o que vejo

E nossas dúvidas são mais do que podemos agarrar…

Mas são dúvidas, meu amor

Dávidas no meio de um belo sonho

Onde acho que não vou acordar

Mas o que pode nos ocorrer, se da dúvida vamos duvidar?

O que vamos juntos fazer, se a dúvida pudermos provar?

Se nossas dúvidas são mais do que podemos agarrar…

Mas são dúvidas, meu amor

Dádivas no meio de um belo sonho

Onde acho que não vou acordar

Dúvidas que nos bastam duvidar…

Dádivas que nos bastam provar…

©Escrevendo, ouvi algo no estilo REM. Gostaria muito que este texto virasse música, caso alguém se habilite, entre em contato. Que todos os seres possam se beneficiar!

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Raça Man

O maior artista pop do mundo não poderia viver até 2010. Além de seu talento nato para cantar, compor, dançar, produzir e inovar, ele foi responsável pela transformação mais impressionante que o planeta viu. De black power se tornou uma espécie de andrógino branco saído das telas de Blade Runner. Suas raras aparições na mídia nos últimos tempos e os supostos escândalos sexuais do ídolo, nunca abalaram o que ele representava como ícone da era pré-replicantes. Cheguei a refletir, certa vez, sobre a razão dele nunca ter sido confrontado por lideranças negras americanas, ou mesmo africanas, pela sua possível posição autoracista. Ao contrário, ele sempre foi acolhido e aclamado pela comunidade negra nos quatro cantos do globo. Sim, porque a acidez da mente racista não é algo que conseguimos compreender de imediato. Ela vem disfarçada de discursos e até muita lógica e razão. Racismo, por princípio, possui um ideal de superioridade. E todos nós, pela nossa frágil natureza humana, já tivemos momentos assim. Seja com um cãozinho, seja com um pedinte no farol. Entretanto, o que acontece com o povo negro, penso, vai além da vida de Michael Jackson. O continente africano possui o fardo do racismo de longa data. Desde as infindáveis batalhas territoriais de seus aborígenes, até o mercado negreiro estabelecido pelos europeus na expansão de seus domínios; o que este povo sempre sofreu é sinal de um sombrio estado de consciência. E aqui, música, movimento e racismo se encontram mais uma vez em prol da elevação espiritual, da consciência negra. O que está por trás da filosofia Ratafári, do reagge de Bob Marley, da urbanização sonora do Cidade Negra, do Blues do Mississipi ou da Georgia, do samba de raiz tupiniquim, da guitarra de Jimi Hendrix, da voz de James Brown e do Seu Jorge, da maestria de Gilberto Gil e da genialidade do Pelé; é a mesma sabedoria. Todos, como o garoto Michael, nos mostram como é belo poder ser “Black or White” – sim, vale a pena ouvir a canção – sem medo, sem superioridade. Tornar-se branco não é, de forma alguma, uma atitude racista. Sentir-se negro, através da arte, do futebol e da música, muito menos. Quem assim enxerga, preso a estética externa, precisa olhar para dentro da sua alma analisando os motivos de tal pensamento. Há algo de superioridade ali dentro. Para finalizar, explico a primeira frase deste texto. Ano que vem a Copa do Mundo será na África, pela primeira vez na história. Se Michael Jackson estivesse vivo, não teríamos a chance de homenagear sua história transformando um país de hegemonia negra em uma festa de todas as cores, com todas as raças. Desejo com todo amor e compaixão que 2010 seja um ano de mudanças na consciência humana.

©Este post foi inspirado em um pedido da Tatiana, leitora deste blog, para comentar sobre o novo disco do Natiruts, “RaçaMan”. Só pelo nome do álbum, que mistura tudo, raças e línguas, nem é preciso comentar muito. Mas ao ouvir “Sorri, Sou Rei”, imaginei que poderia ser uma homenagem ao Rei do Pop, um verdadeiro raça man da igualdade, quando o refrão diz: “Quando você se foi chorei, chorei, chorei. Agora que voltou sorri, sorri, sou Rei”. Que todos os seres possam se beneficiar.

Across the Universe

Se a terra fosse uma passagem, de onde teríamos vindo? E para onde estaremos partindo? Foi assim, com estas perguntas crédulas, que liguei a TV para assistir ao musical “Across The Universe”, da boa diretora Julie Taymor (reconhecida por “Frida”, EUA 2002). Mas o ticket de viagem me levou para outra praia; 1960, Beatles, guerra do Vietnã, movimento hippie, amor, romance e psicodelia típicos dos anos-pós-dourados (no Brasil, a década de 50). A surpresa agradou. Ouvir novas versões dos sempre-clássicos de Liverpool inseridos de forma irretocável no argumento, compondo um novo sentido para cada uma das músicas, é no mínimo genial. Destaque para “Strawberry Fields Forever”, que conecta o encarnado sexy dos morangos ao sangue jorrado no oriente, e para “Revolution” (logo na sequência) simbolizando, ao mesmo tempo, o movimento estudantil a favor da paz “em harmonia” com o ódio que brota do ciúme juvenil. De fato, o filme todo é uma verdadeira cruzada entre dois mundos; o amor entre Lucy e Jude (ela uma americana recém engajada nas causas sociais, e ele um artista britânico que virou estivador por falta de opção – os nomes estão intimamente ligados às famosas canções) e a confusão de uma época cheia de enredos históricos, onde a mistura entre arte e ignorância formaram muito do que somos hoje. A idéia de universo, aqui, não ultrapassa estes limites. É nú e cru, até nas cenas que sugerem o LSD como inspiração, como o circo montado por “Being For The Benefit of Mr. Kite”. Mas acaba por realizar a idéia de estar atravessando um mar de clareza intelectual através das letras excepcionais do quarteto. Inesquecíveis e atuais, é fácil abstrair os motivos que levaram a banda ao estrelato, numa década em que a globalização era só um tubo de ensaio midiático. Com nova forma, então, as músicas ganham fôlego para virar necessidade na sua discoteca, mesmo que já seja um fã incondicional das versões originais. Basta saber que Bono Vox e Joe Cocker emprestam a voz para “I am the Walrus” e “Come Together” respectivamente, sem contar a brilhante interpretação de todo o elenco. Não é por menos, segundo li, Julie Taymor é assídua no universo musical da Broadway, tendo feito a última versão do “Rei Leão” em 2006. Cheio de referências sobre a história dos Beatles, o roteiro é um convite a detalhes que podem passar despercebidos, como a maçã que é cortada pelo ator principal fazendo referência ao selo Apple, fundado pelos caras em 1968. No final das contas, acabei por não cruzar o universo em si, nem no filme, nem no texto escrito para você, caro leitor. Mas tudo bem, afinal, tudo que precisamos se resume ao amor, como bem conclui o roteiro com “All You Need Is Love”.

©Para ser publicado na próxima edição do jornal “O Local”. Ao atravessar o universo, quem sabe possamos deixar uma estrela que brilhe para benefício de todos os seres.

É Sungha Jung!

violao8Quando uma coisa é muito boa, mas muito boa mesmo, é Sungha Jung. Quando algo lhe surpreende de verdade, é Sungha Jung. Quando toca o coração, é Sungha Jung. Quando vai além das expectativas, é Sungha Jung. Quando tem paixão sem limites, é Sungha Jung. Assim brilha a genialidade sem luxo. Assim brota uma nova expressão entre os homens. Assim nasce um ídolo de nome Sungha Jung.

©Hoje, uma bebê-aranha desceu do vidro do carro em cima do meu volante, enquanto dirigia. Notei de imediato que ela se divertia sem “pensar” muito no que fazia. Os grandes nomes do futuro serão frutos da grande teia, porque farão tudo de brincadeira. E todos os seres vão poder se beneficiar. Um fim-de-semana Sungha Jung para todos!

Ouvindo o Porrão na Sala Chinesa

Imagine que você está numa sala. Sentado, aguarda saber o motivo de ali estar. Além da porta trancada, apenas uma entrada tipo caixa de correiro há no ambiente. De repente, um cartão é entregue pela “caixa de correio”. Nele, você vê rabiscos que não fazem o menor sentido. Você pensa, então, que são ideogramas chineses. Mas não sabe ler chinês! Olha a sua volta e percebe uma placa em português, logo acima da porta. Nesta placa está escrito: “Consulte o dicionário Chinês-Português”. Você descobre o dicionário atrás da cadeira e nele, escrito em português, lê instruções para procurar a resposta em uma sacola cheia de cartões que também se encontra atrás da cadeira. Seguindo as instruções, você encontra o cartão-resposta e o coloca de volta na “caixa de correiro”. Ok, você libera sua saída da sala, mas quando sai fica a pergunta: por quê você estava na Sala Chinesa? Não, isso não é tortura oriental. Esse paradoxo é na verdade o processo de funcionamento de um computador. Ele entende os símbolos, mas não consegue compreender o significado. Muitas vezes, nossa mente também não encontra o significado de alguns códigos. Um exemplo, que gera muitos comentários aqui no blog, é a música “Em Busca do Porrão”, do novo CD d’O Rappa. De certa forma, poderíamos considerar que a busca pelo Porrão é a busca pelo significado da própria vida. Talvez seja por isso que tanta gente não a compreende. Vale perguntar a si mesmo se não está escutando a música dentro da Sala Chinesa, procurando apenas o símbolo e não o significado.

©A Sala Chinesa é um pensamento do filósofo John Searle, na década de 80. Leia mais sobre o Porrão aqui no blog. Que todos os seres possam se beneficiar.

Extra

estrelas

Uma extraordinária, antes do final de 2008. Em 1983, dez anos após o momentum de criação, Gilberto Gil gravou “Extra”. Uma canção que extrapola o sentido comum de música. Uma oração pura, extrato de sensibilidade, como o próprio autor. Perfeito para você extravasar as impurezas do ano velho e entrar em 2009 sem extremismos, com extravagância e extraindo mais de cada extremo da vida. Leia a seguir e escute a belíssima versão com o grupo Cidade Negra: “Baixa, Santo Salvador. Baixa, seja como for. Acha, nossa direção. Flecha, nosso coração. Puxa, pelo nosso amor. Racha, os muros da prisão. Extra, resta uma ilusão. Extra, abra-se cadabra-se a prisão. Baixa, Cristo ou Oxalá. Baixa, santo ou orixá. Rocha, chuva, laser, gás. Bicho, planta, tanto faz. Brecha, faça-se abrir. Deixa, nossa dor fugir. Extra, entra por favor. Extra, abra-se cadabra-se o temor. Eu, tu e todos no mundo, no fundo, tememos por nosso futuro. ET e todos os santos, valei-nos, livrai-nos, desse tempo escuro.” Ano Novo Extra para você.

©Para ouvir antes da extrema-unção. Gilberto Gil, Extra, 1983. Que todos os seres possam se beneficiar.