Algo está no ar

Há dias, que escrever é mera parte de mim. E por instantes sou todo palavras, nexos e sintaxe. Não que isso tenha sentido na vida, pois ela é muito mais do que posso dizer. Mas quando digo e não me nego a sentir, vejo pelas letras aquilo que nunca os olhos haverão de perceber. Um semblante de razão, um desejo de oração; é das palavras em meu pulmão que respiro nestes dias. Sim, a sílaba é vento; e nele sopra um saber que orienta o mundo. Atento ao relento, vibrante ou sem fibra, recobro o objetivo de cada tecla premida. Somados à vida, nos traz os motivos pelos quais sorrimos e lutamos, choramos ou largamos, em cada verso sonido, em cada despedida. E sofremos pelo ar que se parte, como a espada que corta o céu zunindo e num segundo decepa a dor do guerreiro ferido. Não há o que ressentir. Para o nada também se vai a fumaça, seja num trago amargo da nicotina, ou no escape encardido do velho carro na esquina; ali se esvai sem pretensão de voltar. Prendo a respiração, sinto uma aflição e solto sem modéstia o carbono, desconhecendo ao certo se é politicamente correto. Mas não é desta inspiração que este texto transpira. Olho para cima, repito o processo e mais uma vez preencho a mente de símbolos e conceitos trazidos dos espaço. Um mosquito voa e ocupa o mesmo ambiente, sem noção, entretanto, de quão valioso o é. Ser não é apenas ter corpo. Ecoar não é apenas ser som. E dou-me conta de que podemos ser como o inseto perdido, que vive a voar sem perceber a riqueza do ar. Pois, por trás da composição, do enredo e da ciência, há uma soberba que devemos aspirar. Sutilmente, observe a mente meditar, a matéria sólida levitar e a consciência, simplesmente se libertar.

©Que todos os seres possam se beneficiar.

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Além de Si

Aqueles que enxergam em mim um alguém, vêem em si um porém. Pois a dúvida de alguém em mim não encontrar, é consolidar da certeza de si mesmo não enxergar. Contudo, ao ver em mim um além de si, não há porque hesitar em ver em ti um reflexo de mim.

©Possam todos os seres se beneficiar.

Seres no Universo

Como parte do Universo, somos seres que habitam corpos mutantes. Como seres no Universo, somos estado transitório, não diferente de uma sombra que surge pela luz forte que ilumina. Como seres, simplesmente somos sem nunca se fixar por completo numa condição material. Somos nômades mentais, fluindo e viajando dentro da consciência temporal e espacial. Sem fincar a realidade dentro deste propósito, vagamos cegamente no trajeto percorrido, esquecendo a memória em cada canto vivido. Como seres, que passam à nossa frente nas ruas, somos estranhos e conhecidos ao mesmo instante. Como seres flutuantes, deveríamos aprender a dançar conforme a música, que se ouve principalmente no silêncio. Como seres, nossos haveres deveriam ser vistos como belas miragens, que se desfiguram lentamente. Olhamos e acreditamos no que nos parece real. E assim seguimos construindo a realidade que nos parece tão formosa. Docilidade saborosa, debilidade enganosa. Como seres no Universo, o que nos resta de esperança é perceber que pouco vale ter. Como areia escorregando entre os dedos, quando miramos para a vitrine da boneca de luxo, ou do novo modelo esportivo que tanto nos chama o olhar, só precisamos nos lembrar que somos seres no Universo, seremos passado no futuro e em breve só a mente teremos… isso não tem como mudar. Por isso, como seres no Universo, não queira mais do que ser.

©Que todos os seres possam se beneficiar.

Apenas uma condição…

Se você ler este texto sem atenção, sua condição será a mesma no minuto seguinte. Olho para a tela, escolhendo o melhor prólogo para a tragédia. Sim, este enredo tem um fundamento triste, ou ao menos prático, se é possível lhe aplicar uma condição. Porque aqui, ou você percebe de fato o que se diz, ou você é um mero zumbi de palavras, ideias e ensejos. Toda condição é um estado, interminavelmente contínuo, invariavelmente lúdico e pronto para acontecer. Um estado nunca, mas nunca mesmo, é permanente. Líquido é sólido. Sólido é gasoso. Não há pretérito, nem nada a realizar. Tudo apenas é. Pintou uma dúvida condicionada? Então, mostre-me suas condições. Mas sem apontar uma arma de duelo, pois aqui não há dueto possível de experimentar por revés. Se criticas a mim, ou apontas um defeito no que digo, é de ti que nasce a insegurança de criar uma condição para o que apenas possui a qualidade de clareza. Sim, tudo isto é uma situação não decisória, sem escolha passada, nem futura; que só pode ser recriada ou modificada no presente. Por isso, digo, não há condições, há apenas uma condição. E não aceito confusões, por favor. Nem julgamentos, pois eles são os erros que construímos no desejo de condicionar. “Se fizeres isso não te amo mais; se ofereceres mais ao outro, não gostas de mim; se não olhares para meu esforço, vou odiá-lo para sempre; se não me queres, também não lhe valorizo; se, se, sês…”. Quando a condição vem no plural perde sua singularidade de significado. Condição é apenas um modo de estar, um conjunto de situações que se encontram num determinado momento e que não pode ser enganosamente compreendida como uma cláusula, uma restrição. É sem juízo que se descobre o lirismo da existência. Mesmo que o não jugo, necessariamente, tenha que ser aplicado com uma postura ética e moral, tão carente no nosso mundinho moderno. Há apenas uma condição: ser vir.

©Se estiver em casa, é serviço de quarto. Se estiver no escritório, pode chamar simplesmente de mind delivery. Que todos os seres possam se beneficiar.