Seres no Universo

Como parte do Universo, somos seres que habitam corpos mutantes. Como seres no Universo, somos estado transitório, não diferente de uma sombra que surge pela luz forte que ilumina. Como seres, simplesmente somos sem nunca se fixar por completo numa condição material. Somos nômades mentais, fluindo e viajando dentro da consciência temporal e espacial. Sem fincar a realidade dentro deste propósito, vagamos cegamente no trajeto percorrido, esquecendo a memória em cada canto vivido. Como seres, que passam à nossa frente nas ruas, somos estranhos e conhecidos ao mesmo instante. Como seres flutuantes, deveríamos aprender a dançar conforme a música, que se ouve principalmente no silêncio. Como seres, nossos haveres deveriam ser vistos como belas miragens, que se desfiguram lentamente. Olhamos e acreditamos no que nos parece real. E assim seguimos construindo a realidade que nos parece tão formosa. Docilidade saborosa, debilidade enganosa. Como seres no Universo, o que nos resta de esperança é perceber que pouco vale ter. Como areia escorregando entre os dedos, quando miramos para a vitrine da boneca de luxo, ou do novo modelo esportivo que tanto nos chama o olhar, só precisamos nos lembrar que somos seres no Universo, seremos passado no futuro e em breve só a mente teremos… isso não tem como mudar. Por isso, como seres no Universo, não queira mais do que ser.

©Que todos os seres possam se beneficiar.

Across the Universe

Se a terra fosse uma passagem, de onde teríamos vindo? E para onde estaremos partindo? Foi assim, com estas perguntas crédulas, que liguei a TV para assistir ao musical “Across The Universe”, da boa diretora Julie Taymor (reconhecida por “Frida”, EUA 2002). Mas o ticket de viagem me levou para outra praia; 1960, Beatles, guerra do Vietnã, movimento hippie, amor, romance e psicodelia típicos dos anos-pós-dourados (no Brasil, a década de 50). A surpresa agradou. Ouvir novas versões dos sempre-clássicos de Liverpool inseridos de forma irretocável no argumento, compondo um novo sentido para cada uma das músicas, é no mínimo genial. Destaque para “Strawberry Fields Forever”, que conecta o encarnado sexy dos morangos ao sangue jorrado no oriente, e para “Revolution” (logo na sequência) simbolizando, ao mesmo tempo, o movimento estudantil a favor da paz “em harmonia” com o ódio que brota do ciúme juvenil. De fato, o filme todo é uma verdadeira cruzada entre dois mundos; o amor entre Lucy e Jude (ela uma americana recém engajada nas causas sociais, e ele um artista britânico que virou estivador por falta de opção – os nomes estão intimamente ligados às famosas canções) e a confusão de uma época cheia de enredos históricos, onde a mistura entre arte e ignorância formaram muito do que somos hoje. A idéia de universo, aqui, não ultrapassa estes limites. É nú e cru, até nas cenas que sugerem o LSD como inspiração, como o circo montado por “Being For The Benefit of Mr. Kite”. Mas acaba por realizar a idéia de estar atravessando um mar de clareza intelectual através das letras excepcionais do quarteto. Inesquecíveis e atuais, é fácil abstrair os motivos que levaram a banda ao estrelato, numa década em que a globalização era só um tubo de ensaio midiático. Com nova forma, então, as músicas ganham fôlego para virar necessidade na sua discoteca, mesmo que já seja um fã incondicional das versões originais. Basta saber que Bono Vox e Joe Cocker emprestam a voz para “I am the Walrus” e “Come Together” respectivamente, sem contar a brilhante interpretação de todo o elenco. Não é por menos, segundo li, Julie Taymor é assídua no universo musical da Broadway, tendo feito a última versão do “Rei Leão” em 2006. Cheio de referências sobre a história dos Beatles, o roteiro é um convite a detalhes que podem passar despercebidos, como a maçã que é cortada pelo ator principal fazendo referência ao selo Apple, fundado pelos caras em 1968. No final das contas, acabei por não cruzar o universo em si, nem no filme, nem no texto escrito para você, caro leitor. Mas tudo bem, afinal, tudo que precisamos se resume ao amor, como bem conclui o roteiro com “All You Need Is Love”.

©Para ser publicado na próxima edição do jornal “O Local”. Ao atravessar o universo, quem sabe possamos deixar uma estrela que brilhe para benefício de todos os seres.