eccorretto

eccorrettoUm único verso é preciso para perceber o Universo. Porque nele está contido aquilo que versa uníssono. Através do som, propaga o verbo. Mas quando um verbo é falado, nada de fato é propagado. Pois, se ao ressoarmos um verso criamos um mundo, quando o verbo se cala tudo dissipa. A palavra é livre em essência, e por isso liberta. Esse é o poder da fluência, como um rio que leva vida e frescor ao sabor dos ventos. Mutante, quando se forma em poesia é belo. Quando se constrói em conceito é argumento. E quando entra na prosa é desperdício. Se está preocupado com a gramática, cuidado, é quase presunção. Toda regra há excessão. Porque a regra é uma forma. E a forma que se escreve e se lê, é como a forma que se olha e se vê. Num momento fatual e consistente, noutro ilusória e impermanente. Perene somente é a natureza da mente. Vazia, serena, bondosa e constante. Mas basta um barulho horripilante, um uivo errante, um bobo falante e uma formiga pedante que logo perdemos a clareza quietante. A vida sopra assim, ecoando palavras, enunciando verbos, evaporando pensamentos. E como pensar é refletir sobre si mesmo, fazer eco do que é correto é agir com amor e compaixão que dão a volta no mundo e retorna a ti com a mesma intensidade. Pois, deixar de reverberar tsunamis de ignorância e desespero é um primeiro passo – fácil por sinal – que todos deveriam fazer para ver brotar um planeta melhor, no presente. Sim, porque do reverberante também respandece luz e sabedoria. Basta apenas você entoar o mantra certo e tudo se transforma. “No princípio era o Verbo” (João 1:1). Proferido em Sílaba, acrescento. E por causa disso tudo, hoje vou tomar uma Tônica.

©Este texto, a ser publicado na próxima edição do jornal “O Local”, é uma homenagem aos meus amigos Andrea Turquetti e Ricardo Mendes que estão iniciando a nova marca eccorretto. Muito mais que uma divulgação de seus trabalhos, que também são lindos, é uma atitude de fazer ecoar suas aspirações para que o mundo ganhe atenção ecológica e social, para que todos os seres possam se beneficiar.

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Santo, hóstia, súplica e outras rappas

Alguns grupos musicais, aqui e no mundo, são verdadeiras religiões sociais modernas. Lançam seus álbuns e em poucos dias já estão nas rádios, nos cd’s players e nos mp3 da galera feito milagre. Mas no caso do novo CD d’O Rappa a religiosidade vai além da euforia típica dos fãs. A começar pelo título (7 Vezes), podemos notar o espírito da obra, que utiliza o número da perfeição bíblica e possui uma série de significados cabalísticos. Entretanto, após ouvir pelo menos 7 vezes – é difícil absorver tudo de início – nota-se que praticamente todas as músicas utilizam expressões religiosas nas mais variadas formas, que se escondem lentamente em ideais político-sociais já conhecidos da banda. Para não ficar só na oração sem fundamento, acho legal deixar a reza clara. E a primeira música nem vale, porque o título da canção já diz tudo: Meu Santo Tá Cansado é uma espécie de protesto com confissão… “…já jurei, já jurei… com dedos cruzados, com dedos cruzados… não tô aqui pra ser herói cuzão, pra pagar de otário…”. A segunda trilha é mais sutil. Em Verdade de Feirante, a letra pergunta onde está a verdade daquele que vive “no meio da casa pequena de pau… tá no grito, tá no sol que bate… tá no rito, tá no sol que arde…”. Porém, é na terceira expressão da obra que notamos uma relação diferenciada, com um sentido mais apurado da palavra religiosa inserida no contexto popular d’O Rappa. Hóstia – tema da canção – consegue transmitir a essência da palavra (além do alimento espiritual, hóstia também significa “vítima expiatória”) quando diz… “ah, meu escudo… meu escudo é minha hóstia…” e passa a idéia de um ser que se protege da miséria. Brilhante e confuso a tal ponto que fans da banda questionam na comunidade do Orkut o sentido da letra. Mas se você pensa que acabou, não sabe da missa metade. E para encurtar vou apenas citar música e trecho, deixando para você as conclusões: Meu Mundo é o Barro – “Eu tenho fé… tentei ser crente, mas meu Cristo é diferente, a sombra dele é sem cruz, no meio daquela luz…”. Monstro Invisível – “… vejo a minha história com a sua comunga(r), vejo a história, ela comunga…”. Maria – “…hei de louvar sempre a harmonia, meu coração é pulsação e meu guia, nunca esqueci da minha mão de Maria…”. Súplica Cearense – “Oh! Deus, perdoe este pobre coitado, que de joelhos rezou um bocado, pedindo pra chuva cair sem parar… Oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe, eu acho que a culpa foi desse pobre que nem sabe fazer a oração…”. Respeito Pela Mais Bela – “…independente de onde esteja agora,… traga a esperança, traga ela de volta…”. Vários Holofotes – “…o santo dorme, o santo daime, muita coisa de bom que acontece com a gente…”. Enfim, se você chegou até aqui, talvez busque um propósito, como eu, para tantas relações religiosas no disco desta banda ímpar. E ele existe; bem no meio ou mais precisamente na sexta trilha. Em Busca do Porrão é primorosa. Não apenas pelo balanço e ritmo que agradam muito, mas porque consegue resumir o princípio da existência divina, que está presente em qualquer doutrina espiritual. Por isso, nada mais justo que terminar este artigo com ela, na íntegra: “A busca do Porrão não é de paz ou de abraço,
 de grade, de foice amarelada, não é de cagaço,
 não tem cor, não tem caô, 
nem promessa, nem fita, nem missa,
 a busca do Porrão não é missão, 
é uma sina, 
a busca do Porrão não faz barulho 
e não cobra dívida,
 a busca do Porrão é intenção, o
 abraço consternado do pai,
 no filho pródigo perdoado e a presente felicidade,
 que não começa e nem termina no espaço da paz, 
a fruição do som, do espaço vazio, 
o amor que não dá pitaco, que não dá pio…
 a busca do Porrão não tem fim,
 não tem fim nem finalidade,
 onde é necessária não tem, não tem cidade, 
a busca do Porrão é a beleza, 
nunca perdida da cidade, 
pra além do silêncio, do gozo da mulher
 difícil da cidade, 
do patrão encaixe neura do torturado, 
pralém do trem, do ônibus, do pé inchado,
 do patrão encaixe-neura do torturado,
 folheado, café-milho misturado,
 a busca do Porrão vai além, além do macacão, 
abraço evangélico, evangélico no tição, 
onde ninguém se perde nos dramáticos sete,
 não tem traíra, não tem canivete,
 sem traíra, sem canivete, sem traír canivete,
 o legal encontra o razoável,
 encaixe do neura do torturado,… além do papo mudo repetido,
 além da compreensão,
 além do cabelo reco sem discriminação…
 o Porrão não se respira, 
não se vende, não se aplica,
 o Porrão não se respira,
 o Porrão é pura pica…
 a busca do Porrão não tem fim e não faz barulho…”. É por essas e outras rappas que não se deve rotular o som desses caras.

©Texto publicado no jornal O Local desta semana.

◊Leia mais sobre o Porrão logo acima. Sobre a nova música? Leia aqui.